COM QUANTOS GAJOS ESTIVESTE?

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Sabem aqueles momentos em que percebemos que está tudo errado? Que o mundo e a vida, como a conhecemos, nunca mais vai ser a mesma? Aquela sensação de que certas coisas são tão hediondas que só acontecem nos filmes, no telejornal ou aos outros – mas um “outros” bem longínquo…?

Dizem que nunca se está verdadeiramente preparado para o impossível. Eu não estava. Aquele momento, aquele email, aquela escrita fizeram-me sentir esmagada. O que eu li eram palavras de Outra pessoa. De alguém que se apoderou Dela. Da minha Amiga. Da minha Irmã. Da minha Pessoa. Todos menos Ela…. Ela não.

“Monga! Desculpa estar tão silênciosa mas tenho tido umas situações para resolver e  depois fico sem vontade para falar com ninguém. Estou para te escrever já há algum tempo mas só na faculdade é que me sinto confortável e a verdade é que já não tenho vindo muito. Às vezes sinto-me um bocadinho desamparada, precisava que estivesses aqui comigo. Sinto a minha cabeça a mil. Ultimamente tenho pensado muito na minha relação com o Pedro e na minha relação comigo mesma. No inicío era tudo tão simples com ele. Tudo tão bom. Ele era querido comigo, respeitava-me, ouvia-me, percebia-me e raramente discutiamos. Eu era querida com ele e acho que o fazia feliz. Era tudo tão aparentemente perfeito que tive medo que fosse mentira e que acabasse rápido. Davamo-nos lindamente, passávamos horas a conversar e eu soltava gargalhadas como se nos conhecessemos desde sempre. Tenho saudades disso. Sinto saudades daquele início. Daquela facilidade e daquele romantismo. Acho que por mim parava no tempo e ficava para sempre naquela magia, naquele lugar onde tudo é cor de rosa e nada de mal acontece.

Sei que estou a ser injusta porque a verdade, e tenho consciência disso, é que ele continua a tratar-me como uma princesa. Mas há qualquer coisa em nós que mudou. Acho que é em mim. Não me sinto leve. Queria estar como antes. Não te sei explicar. Será que me tornei uma eterna insatisfeita? Uma pobre e mal agradecida?

Ele prepara-me jantares românticos, oferece-me flores, está constantemente preocupado comigo e sempre super atento a todos os detalhes. Preocupa-se constantemente com tudo o que me diz respeito. Tudo! Não imaginas. Até com o meu corpo. Diz muitas vezes que o meu corpo também é um bocadinho dele, e por isso, que devemos os dois estar atentos para que eu tenha um corpo perfeito. Palavras dele. Não achas amoroso?! Sei lá, nunca ninguém se preocupou comigo desta forma, deste jeito tão genuíno. Para me dar motivação, disse que se eu conseguisse chegar aos 47 Kg que tinha um presente para me dar. Fiquei sem palavras com este gesto. Estamos mesmo os dois focados em nós. Em tudo. Nunca tive isto.

Agora quero contar-te a grande novidade. Na verdade é quase por isso que te estou a escrever este email! Estás preparada?!

O Pedro convidou-me para ir viver com ele! Estamos a viver juntos! Estou mesmo contente! Mesmo, mesmo! Talvez ainda seja um bocadinho precoce mas sabes quando tens a sensação de que encontraste o homem da tua vida? Sinto que ele é o tal. Sinto mesmo.

Ele tem um feitio complicado, mas eu também tenho. Não sou fácil e às vezes não sei fazer as coisas. Ultimamente temos discutido um bocadinho mais. Ele está a trabalhar imenso, chega sempre estoirado e, coitado, com menos paciência, naturalmente. Tenho pensado que talvez seja eu que provoque as discussões e que o faça perder a cabeça. Ele diz-me muitas vezes isso. Talvez seja mesmo. Às vezes penso que estou a ser egoísta e a pensar só em mim. Questiono-me muitas vezes sobre o que posso fazer para ser melhor namorada e para o fazer mais feliz. Sinto que estrago sempre tudo, sabes? Outro dia, por exemplo, discutimos. Sei que é normal todos os namorados discutem, principalmente aqueles que vivem juntos. Faz parte. Aliás, diz-se que descarregamos em cima das pessoas que mais gostamos, certo? Foi uma discussão parva e sem sentido nenhum mas sinto-me sempre culpada por não conseguir dar-lhe a estabilidade que eu sinto que ele precisa. Foi uma parvoíce o que aconteceu, até porque logo a seguir ele pediu-me desculpas e disse que a forma de me compensar era irmos passar o fim de semana a…. NEW YORK! Reapaixonei-me, óbvio!

Ele diz que ficou muito triste comigo e agora percebo porquê. Outro dia, eu estava a sair da faculdade com uns colegas meus e, como já não estávamos juntos há algum tempo, acabámos por ficar na conversa durante uns minutos. Nesse dia, o Pedro decidu fazer-me uma surpresa e foi-me buscar. Disse que não tinha gostado da forma como me viu à conversa com eles. Pareciam íntimos, disse. Mas nessa altura não me deu sequer hipótese de me justificar ou de os apresentar. Ouvi buzinar, e quando olhei, ele saiu do carro, veio na minha direção, agarrou-me no braço e empurrou-me para dentro. Estava com um ar zangado. Ainda barafustou para lá um bocadinho, mas eu tentei não responder e assim que consegui intervir, pedi-lhe desculpas e dei-lhe um beijinho. Queria por tudo que não ficássemos chateados. Não falámos nada até a casa. Quando chegámos ele pareceu-me mais calmo, embora não tenha dito uma palavra. Aproximou-se de mim e ficou-me a olhar. Comecei a ficar nervosa porque não sabia o que é que lhe ia na cabeça, nem o que é que aquilo poderia despoletar. Quis dizer-lhe alguma coisa, mas sentia a minha voz paralisada, por isso tentei sorrir-lhe para perceber se estávamos bem. Empurrou-me para cima da cama, sentou-se em cima de mim e disse “que se lixem os putos” e começou a despir-me. Ele dizia-me coisas despropositadas e olhava-me de uma forma estranha. De repente parou, olhou-me novamente e perguntou-me “com quantos deles” é que eu já tinha estado. Respondi-lhe “com ninguém”, visto que pouco tempo depois de chegar a Boston conheci o Pedro.

Voltou a olhar para mim, semicerrou os dentes e baixinho perguntou-me, pausadamente: “Com quantos gajos estiveste?”.

Ele parecia furioso e eu fiquei com medo porque não sabia qual era, para ele, a resposta certa, mas arrisquei e respondi-lhe novamente, “Só contigo, Pedro. Conhecemo-nos pouco tempo depois de eu cá chegar”.

Lembro-me de acordar no dia seguinte. Sentia dores no corpo todo, devia ser da ansiedade e daquela tensão. Já sabes que odeio discutir, sobretudo com ele. Tenho medo que se farte de mim…

Abri devagarinho os olhos e vi-o a olhar para mim. “Bom dia, miúda gira. Tenho uma surpresa para ti”.

New York, here we go!!!!!

Nova Iorque, foi lindo! Aquilo é brutal! Temos que ir lá as duas fazer compras um dia! Aproximamo-nos imenso e demo-nos lindamente. Acho que precisamos de vez em quando de umas férias os dois para descomprimir. Não discutimos nunca! Foi ótimo.

Ele é mesmo tirado de um filme. Sinto-me todos os dias uma privilegiada por ter encontrado alguém assim. Chego à conclusão que as nossas discussões resumem-se à falta que sentimos um do outro e ao medo de nos perdermos. Ele outro dia disse-me isto e fez-me mesmo sentido. Fiquei a pensar. Temos que estar mais tempo só os dois.

Ainda assim irrita-me, porque parece que penso nas coisas, mas que elas me escapam no segundo a seguir. Fazem-me todo o sentido mas depois parece que faço tudo errado porque não penso.

Depois deste fim-de-semana épico, voltámos à nossa rotina. Ele foi trabalhar como sempre, e eu fiquei em casa – acordo nosso. Decidimos os dois que eu devia passar mais tempo em casa. Afinal de contas é a nossa casinha e alguém tem que tratar dela. E como sabes que eu adoro as coisas à minha maneira, tudo limpo e arrumadinho, aceitei. Depois aproveito e também tenho mais tempo para estudar, claro.

Outro dia recebi uma mensagem da Eloise e da Aline, lembras-te delas? A desafiarem-me para um lanchinho de miúdas. Como tinha a casa toda arrumada e até tinha o jantar adiantado, achei que não tinha problema. Não estava com elas há imenso tempo e apetecia-me ouvir as novidades. Mil fofocas, mil histórias novas, mil engates, sei lá. Que saudades! Soube-me bem.

Como podes imaginar, pensei em tudo menos no meu telemóvel. Pois ele tocou, várias vezes, e eu não ouvi. E o tempo foi passando. Imagina o Pedro preocupado comigo.

Quando vi fiquei logo aflita porque sabia que tinha estado mal e que ele ia chatear-se comigo. Tinha desiludido o Pedro mais uma vez.

Assim que vi as chamadas não atendidas fui para casa o mais rápido que pude e quando cheguei vi o carro do Pedro estacionado. Era suposto chegar só às sete, por isso estranhei e mais nervosa fiquei.

Lembro-me de pôr as chaves na porta a medo, confesso. Na altura, só conseguia pensar na razão pela qual eu não o tinha avisado deste lanche. Teria sido tudo tão mais simples. Podia evitar tantas chatices. Abri a porta devagarinho, parecia que ouvia o meu coração bater. Por outro lado, tenho a certeza que o Pedro só me quer ver bem. Ainda por cima arrumei a casa toda e deixei o jantar já preparado. Claro que ele não se ia zangar comigo. Porque razão o faria?

Lembro-me de entrar em casa e, com a voz meio a falhar, chamei pelo nome dele. Tenho tanto medo de o desiludir…

Acordei algumas horas depois no hospital. Tinha o Pedro ao meu lado. Ele nunca me deixa mesmo. Doia-me o corpo e a cabeça. Nunca me senti assim. Olhei à minha volta e perguntei-lhe o que me tinha acontecido. “Para a próxima, tens que ver por onde é que andas, senão tropeças e magoas-te” e fez-me uma festa na cabeça. Esperei que se alongasse, mas nada mais acrescentou. Estava completamente confusa e sem perceber como caí desta maneira.

A médica veio falar comigo, disse-me que tinha falado com o Pedro e que tudo o que tinham conversado indicava que eu devia estar com um esgotamento. Disse-me que era normal não me lembrar bem das coisas porque andava muito cansada e que o traumatismo craniano pode causar isso. O meu corpo e mente estão a ressentir-se do cansaço. Foram muitas coisas novas a acontecer. Agora imagina como estará o Pedro que trabalha tantas horas por dia.

Ele, amoroso, disse que vai arranjar uma empregada umas horas por semana para me ajudar aqui. Sugeriu, para meu bem, que passasse mais tempo em casa, descansasse, comesse melhor para cuidar do meu corpo e que, agora nestes primeiros tempos até isto passar, deixar os programas, cafés e lanchinhos porque isso só me prejudica. Não vou conseguir chegar a toda a gente. E agora devo-nos isto a nós. A mim e a ele, que está sempre ao meu lado.

Olho-me ao espelho e vejo as marcas desta queda. Não imaginas o que sinto por me ter deixado chegar até aqui. Às vezes temos que saber ouvir aqueles que mais gostam de nós. Saber que quando nos pedem determinadas coisas é para o nosso bem. E o Pedro sempre me foi avisando de tudo.

Contei aos meus pais que vou ficar cá com o Pedro. É com ele que quero ficar. Sinto mesmo que é para sempre. Vivemos um para o outro, sabes? Nunca senti nada assim antes. Somos mesmo os dois. A minha mãe não reagiu nada bem mas a verdade é que já temos outra idade e não lhe dei margem sequer para se meter na minha vida. Eles não o conhecem e por isso nunca poderiam perceber o que temos. O Pedro farta-se de dizer que é único.

Vou acabar o curso qualquer dia. Hei-de ser tudo aquilo que tu e eu sempre imaginámos para nós, mas nesta fase preciso mesmo de descansar e o Pedro foi amoroso e disse que não me preocupasse com dinheiro. Ele ganha o suficiente para estarmos juntos e felizes.

Não vou ter telemóvel agora. Os remédios deixam-se sonolenta e não quero ter muitos estímulos para poder descansar. Prometo dar-te notícias de vez em quando. Quando eu ficar boa combinamos e eu falo com o Pedro para vires cá passar umas férias. De certeza que ele vai concordar.

Nunca me esqueço de ti. Torce para eu ficar boa e para eu e o Pedro voltarmos a poder estar como era no início, quando eu fazia as coisas certas.

Até já monga!”

Baixei o ecrã do computador para me afastar daquelas palavras. Apercebi-me que estava a suster a respiração e que me doía o peito. Não sei quantas horas fiquei a fitar o vazio mas comecei a ler o email ao principio da tarde e, quando dei por mim, estava escuro lá fora. Era noite e estava frio. Tinha a boca seca mas os olhos estavam totalmente encharcados e sentia cieiro na cara.

Nunca estamos preparados para o impossível. Acreditem que não. Pomos sempre as mãos no fogo que aquela Amiga, aquela Irmã, tão forte, cheia de vida, sempre bem e feliz, nunca vai ver o mundo senão da forma como ele é. Que esta nunca vai ser a história Dela. Nunca.

Mas é. Hoje esta é a história Dela – e minha – mas podia ser a história de qualquer uma de nós. Da tua irmã. Da tua amiga. Da tua colega. De quem está ao teu lado no metro todas as manhãs. E no dia em que percebemos isso, o mundo muda.

O meu mudou.
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