FRAGMENTOS: A FUGA

170

……Vergou o corpo, tentando assim acalmar a dor da corrida e a falta de liberdade. A certeza de que os despistara sossegava-lhe os receios de ser apanhado. Lutara pela liberdade, fugira, exilando-se em afetos de outros que lutavam como ele para que o país fosse livre. E agora? Voltava a fugir, de homens e de destroços que deformavam as cidades, cidades para onde fora para ajudar as vidas em sofrimento de outros. Ser considerado uma ameaça, apenas por fazer tanto por aquele povo, deixara-o sem outro caminho para além da fuga.
……Ajeitou o corpo pequeno que trazia amarrado a si com carinho e panos fortes. Filho de quem? Que mãe choraria agora por aquele ser exangue que encontrara caído na beira da estrada? Não o deixaria morrer, iriam juntos chegar a um porto seguro. Repetiu alto a frase: iriam juntos para um porto seguro.
……Sem disso se ter dado conta, entrara num emaranhado de linhas férreas. Sentou-se no chão, observando o que antes haviam sido carris paralelos e entrecruzados, dando origem a múltiplas ligações e destinos. Viu nesses trilhos caminhos rotineiros de quem trabalhava, sonhos transformados em destinos em férias, negócios sérios e não sérios, traficando pessoas e bens, camuflados pela ignorância de não saber cortar a raiz do mal. No seu caso, eram hipóteses de fuga. No caso daquele pequeno corpo, uma esperança de vida.
……Encontrava-se longe da estação, nem conseguiria avistá-la. À sua volta apenas cabelos de carris, de destinos, de inícios e de fins. Viu uns olhos cansados que o observavam. Sorriu-lhe, beijou-lhe a testa e sossegou-o, numa língua que nem sabia se partilhavam. Apertou de novo o pano que os mantinha unidos num só objetivo: fugir.
……Procurou nos bolsos. As poucas moedas que haviam corrido consigo na fuga, haviam desistido de o acompanhar, abandonando-se ao vazio das ruas perigosas. Estava sem dinheiro. Beijou de novo a testa da criança, talvez para se convencer de que iriam encontrar soluções.
……Se apanhasse a cauda de um comboio, permaneceria exposto ao frio daquela noite nublada. Contudo, enfaixados na fuga, os dois corpos poderiam produzir o calor mínimo para suportar a viagem. Continuar ali seria assinar pelo seu punho a sentença de uma morte sofrida para si mesmo, e a morte por abandono daquele ser frágil.
……Levantou-se com dificuldade quando ouviu ao longe um apito. O comboio anunciava-se com uma luz potente, tão parecida com os gabinetes de tortura. Não vacilou. Teve, isso sim, pena de já não possuir a agilidade de outros tempos. Preparou-se para um salto que não seria fácil, mas sair dali era prioritário. Correu, saltou, desequilibrou-se e voltou a agarrar-se à vida que lhe faltava cumprir.
……Sentado na estrutura metálica, viu como o passado se afastava e o futuro o recebia sem se importar que estivesse de costas viradas para se proteger do frio. Beijou de novo a criança, que adormecera mais uma vez. Iriam juntos para um porto seguro.

Ler artigo completo ...