FRAGMENTOS: DESPEÇO-ME DE TI

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……….Segurei-te junto a mim, desvalorizando a tua indignação ao pensares que te roubava as ideias. Queria proteger-te do que te consumia, do que já começara sem dares por isso. Queria não ter de te explicar nada, queria continuar sem te mostrar como o papel que escrevias nada tinha. Rabujaste, como sempre fazias, nem sabias ser de outra forma, neste novo tu que te dominou. Achavas que te pregava rasteiras e te induzia em erro, ou que te tirava conceitos e enredos, mas não era isso. Queria só tirar-te a angústia da mão, a que terias se um rasgo de lucidez te apanhasse desprevenido. Queria tirar-te o papel branco que não te parecia em branco, mas cheio. Eu, sem ter coragem de te explicar que nada havias escrito, que as ideias te fugiam da cabeça, do cérebro, do sentido, e que, quando escrevias, pouco ou nada se lia, ia tentando que pensasses que tudo se processava por culpa minha, eu, que te pedia em silêncio para que não desistisses, que pedia ao destino que nunca imaginasses sequer o que já não eras, e continuasses, sempre, a rabiscar o vazio pensando em ideias que não te surgiam, mas que pensavas serem geniais. Assim, enquanto te perdias em rasgos de mau humor, achando-me responsável por tudo, ignoravas que as ideias não te saíam, que ficavam por anotar, apenas por serem sensações, sensações de outros rasgos, esses de memórias desgarradas do teu hoje que desconhecias. Garantia-te que guardava tudo, mas desconfiavas. Temias o roubo de inícios de histórias que sentiste sem escrever.
……….Acumulei-as num baú, onde, em jeito de tesouro envenenado, acumulei a certeza de que jamais voltarias a ser o mesmo. Também guardei, no mesmo baú, as lágrimas que prometi nunca te mostrar. Caminhámos assim, lado a lado, num jogo de miúdos que já não éramos, até perderes o meu nome, o meu rosto, até à repetição crescente de perguntas sobre o que fazia perto de ti. Caminhei sem desistir de ti. Até que te esquecesses de respirar, estaria ali para ti, por ti, contigo, guardando os teus papéis e guardando o meu papel na tua vida.
……….O baú acompanhou-te, quando me despedi do tu que deixaras de ser, ao lado do corpo que desistira de te guardar. Despedi-me dos anos que te levaram de ti e de mim. Não são essas as memórias, acredita, com que fiquei. Permanecem em mim, isso sim, o que escreveste a tinta no mundo que fomos.

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