FRAGMENTOS: JASMIM

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Jasmim. Decidira chamar-se assim ao entrar naquele refúgio. Fechara-se num silêncio imposto pelas regras e pela sua vontade. Atravessara o claustro havia duas décadas e não tencionava voltar a cruzá-lo, se o destino desse caminhar fosse sair.
Depressa se habituara ao desconforto, aprendendo a senti-lo confortável. Sem pressa, esquecera-se do valor das palavras proferidas, entendendo o quanto escondem. Devagar se foi tornando uma peça insubstituível na sua própria vida, aceitando isso com sobriedade.
Não estranhara a vontade de construir o livro. Escreveu-o, enchendo-o de instantes que permaneciam acesos, sem modificações. Assim permitira, a tantas outras mulheres que nunca se chamariam Jasmim, que entendessem melhor a vida. Não avaliara que, ao escrever esses instantâneos de dor ou riso, transcrevia vidas de tantas outras, decerto menos dotadas para fazer das palavras uma bandeira. E nunca imaginara, nessas linhas arrumadas, o poder de reescrever vidas mal começadas, terminadas, ou apenas desarrumadas.
Fechou-o, serena, quando terminou a sua longa vida. Soube que finalizara o livro. Também a vida. Preparou-se e partiu, sem atravessar o claustro. Guardou um sorriso para quem a viesse encontrar. Esse sorriso nunca se apagaria, nem da memória guardada de si, nem da memória da história lida.
Provocou uma nova forma de encarar a existência da mulher. Fê-lo sem saber ou sabendo, ficou por confirmar. Apenas se dizia, pelo mundo, que revolucionara o entendimento dessa parte da vida: as mulheres.

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