FRAGMENTOS: O REMENDO

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O desespero tingia-lhe a vida de tons acinzentados, tantas vezes recebidos em inícios de fins. Fins sobrepostos, talvez anulando-se uns aos outros, talvez agudizando tristezas somadas em dias vividos. Amélia habituara-se a não esperar nada dos dias novos. Despertavam-na para mais uma sequência de horas iguais a vésperas e futuros.

Por essa razão, o aparecimento daquele homem alto e seco, exausto, pareceu a Amélia um detalhe tão cinzento como a rotina. Deixou que entrasse na casa, que se dirigisse ao cano que precisava de remendo. Não o viu como um remendo para si.

Ao comentário de Alfredo, dizendo que os prédios velhos o sustentavam, esboçou um sorriso quase triste, ou só envergonhado. Amélia não seria capaz de julgar a frase, limitou-se a relembrar como se sorria, oferendo-lhe alguma simpatia.

Alfredo entusiasmou-se com aquele sorriso. Estaria escondido havia quanto tempo? Complicou o remendo, inventando a necessidade de mais horas, de mais materiais. Não pensava fazer-se pagar por nada disso, já estava a ganhar. Voltaria no dia seguinte, e no outro. Amélia mantinha-se perto, bebendo dos gestos competentes, tão competentes que até escondiam o engodo, uma espécie de animação. Os dias foram-se somando, agora novos.

Numa noite, a braços com a insónia e o frio, Amélia sentiu-o de forma diferente. Acordava-lhe o corpo, devolvia-lhe calor, enchia-lhe os pensamentos. Era capaz de sorrir sem dificuldade, talvez até com prazer, ali no escuro.

O dia seguinte trouxe-lhe a confirmação. Não estava só. Contudo, uma dúvida apanhou-a de surpresa. Aquele homem queria apenas seduzi-la, pensou. Alfredo, adivinhando-lhe as suspeitas, abriu-se de par em par. Aproximou a sua solidão da de Amélia, colou as suas memórias de desamor às dela, mostrou-lhe o engodo do cano sem esperar perdão.

Amélia hesitou longos minutos, dividida entre a vontade de permanecer no acinzentado desespero, tão confortável, e a vontade de sair dele. Só quando viu Alfredo caminhar para a porta se decidiu. Agarrou-lhe o braço, leu-lhe a tristeza no olhar e sentiu a vontade de o reter. E Alfredo ficou.