PARA O MEU GINECOLOGISTA COM AMOR

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Tenho um homem ginecologista. Não sei porque optei por ter um homem como médico desta especialidade, desconfio que ele me aconteceu, como normalmente nos acontecem as pessoas mais especiais da nossa vida.
Talvez por me ter acontecido, fomos muito felizes desde o início.

Falamos enquanto eu me dispo no gabinete, atrás da secretária dele. Desconfio que a nossa tagarelice começa mesmo na porta de entrada do consultório.
Continuamos na converseta antes dos exames de rotina: pergunto-me se eu serei a sua única doente que de pernas abertas lhe fala de gin e de sonhos. Se calhar não sou.
Lembro-me de um dia estar a falar alto no gabinete, enquanto mudava de roupa e vestia a bata azul; ele ouvia-me semi-nua, do outro lado da sua secretária, e respondia-me em voz alta também.
Pergunta-me tudo: o que ando a fazer profissionalmente, se durmo, se como, se tenho namorado.
Lembro-me de, nesse momento, ter pensado que ele era o único homem a quem eu contava a minha vida toda, como se falasse com um poço e o poço me respondesse de volta.
Ele sabe o que uma mulher passa com a gerência da sua vida profissional, da sua família, da casa, dos filhos, do seu corpo. Ele sabe dizer-lhe se está doente ou não.
Ele sabe fazer nascer bebés e sabe dizer a uma mulher que ela tem cancro do útero sem chorar.

Ele sabe o que é ter uma candidíase.
Ele trata-as quando elas aparecem – apelidámo-las amorosamente de “Candies”.

Ele sabe o que é ter uma candidíase e uma infeção urinária ao mesmo tempo.
Ele deve estar a odiar o Mayer a esta hora, porque ele sabe o que é que os Mayers-da-vida nos fazem quando têm poder e acham que podem fazer o que quiserem connosco.

Ele diz-me que está na hora de engravidar sempre que lá vou.
Tornou-se persistente depois de eu fazer 35 anos. Fala-me da biologia e do corpo: eu respondo que só dou com estafermos e que isso não é compatível com a maternidade responsável que quero para mim.
Ele ri-se porque acha que eu penso demais. Eu rio-me porque é verdade e juro que um dia destes congelo os meus óvulos só para o deixar mais descansadinho.

Houve um dia em que nos zangámos e eu tive de o perdoar.
Voltei para ele mais tarde porque acredito que aquele médico é um pequeno fenómeno masculino feminista de bom coração e eu e o meu corpo gostamos muito dele.
Uma vez, há uns 4 anos, apareceu-me uma coisa estranha no peito. Eu senti. Ele não se riu e mandou-me fazer uma mamografia. Acho que ficámos os dois verdadeiramente preocupados, sem que nenhum dissesse nada ao outro. Fizemos um pacto de silêncio, sem drama.
Era preciso fazer uma mamografia e fez-se.
Era uma fibrose. Ele sabe como foi.
Como sempre; porque ele sabe sempre como é.