UNS E OS OUTROS

512
Créditos Rui Olavo

Quem cresceu na década de 60 na Metrópole, como se dizia à época, teve o seu primeiro contacto com “os outros”, os que eram “diferentes de si”, através das matinés de domingo transmitidas pelo único canal de televisão então existente: a RTP. Eram tardes bem passadas, com aventuras de índios e cowboys, com suspense garantido, sensação de perigo iminente, perseguições a cavalo em longas pradarias e quentes desertos mas com um final feliz: os bons ganhariam, os maus seriam eliminados (e eliminados, quer dizer eliminados, até porque as prisões eram frágeis naquelas paragens e as personagens benévolas das fitas eram propensas ao exercício da justiça pelas próprias mãos). E não havia margem para dúvida: os bons – os cowboys, os pioneiros, os soldados americanos, os brancos, enfim – lutavam entre si pela posse de terras e de gado mas uniam-se na guerra contra os “selvagens” dos índios que, não dando margem para erro, se apresentavam sempre com longos cabelos apanhados num rabo de cavalo e muitas penas na cabeça. Eram exímios a cavalgar, os índios, a atirar setas envenenadas (ou não) e a comunicar por sinais de fogo, arte interessante e útil no ainda desconhecido Oeste… Mas não dava para enganar o espectador mais distraído: os mais parecidos connosco, os que não usavam penas mas chapéu – os brancos, enfim – eram os bons, apoiavam os colonos que iriam plantar as terras incultas dos incultos índios e salvavam famílias, diligências e até a Cavalaria de todas as malvadezas dos índios que, teimosamente, recusavam a civilização e a justa ocupação das suas terras: bárbaros, está a ver-se. Mas o que poderia esperar-se de personagens adornadas com penas que montavam a cavalo sem sela?!
Quando comecei a ver filmes e a ler livros sobre a segunda guerra mundial, o reconhecimento apriorístico do “outro” passou a ser mais complexo: Anne Frank era como eu… uma adolescente branca com sonhos que escrevia, só que, por uma razão que não lhe estava estampada na cor da pele ou na forma como montava um cavalo, era perseguida. E apesar da leitura do seu diário me conduzir a considerá-la pertença do “universo dos bons”, na primeira linha já sabia que não haveria happy end para aquela narrativa. E chorei quando a escrita bruscamente interrompida me conduziu ao fim do livro, como temi cada página do primeiro “calhamaço” que li: “A Centelha da Vida”, de Erich Maria Remark, romancista que emigrou para os Estados Unidos em 1939, depois dos seus livros terem sido banidos e queimados na sua Alemanha natal, onde foi acusado de descender de judeus franceses. “A Centelha da Vida”, situada num campo de concentração imaginário, levou-me pela primeira vez a pensar sobre o horror da clausura e a indignidade da promoção da indignidade humana: neste romance, havia apenas bons e maus segundo os actos que praticavam. Sem penas e sem cavalos.
Depois, li “Se isto é um Homem”, do italiano Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz que, por ser judeu, para aí foi deportado e aí permaneceu entre Dezembro de 1943 e Janeiro de 1945. O livro – que nos interroga sobre a humanidade – teve a sua primeira edição logo em 1947 e, segundo o autor, foi escrito para o ajudar na sua libertação interior e para ajudar os outros, todos os outros, a reflectirem sobre a natureza e a condição humana.
Nos anos 80, um filme do francês Claude Lelouch (que, salvo erro, vi no cinema Star, na Avenida Guerra Junqueiro, em Lisboa) espantou-me ao unir na mesma narrativa as histórias de três gerações de músicos e bailarinos russos, alemães, franceses e norte-americanos. À época, o filme – cujos acontecimentos se iniciam no período anterior à segunda guerra mundial e terminam já década de 1980 – fez um estrondoso sucesso. Dele, hoje lembro sobretudo o título, como se fosse um soglan próprio para os dias que correm: “Les uns et les autres” (Uns e os Outros).
Não foi a “madelaine” de Proust que me trouxe tudo isto à memória, mas a Tchetchénia, uma república autónoma da Federação Russa, localizada no Cáucaso, entre os mares Cáspio e Negro, que não chegará a ter um milhão e meio de habitantes no meio dos quais, segundo o chefe de Governo Ramzan Kadyrov, não haverá nenhum que seja gay!!!
Foi esta frase tão estúpida como abjecta que me fez pensar sobre tudo o que já vi e já li sobre a condição humana e a dificuldade que temos em reconhecer o direito aos outros de serem e viverem como são. Que interesse tem uma sociedade só de “uns” sem “outros” se a riqueza da humanidade está precisamente na compatibilização do que somos “uns” e “outros” e no enriquecimento mútuo que podemos proporcionar-nos?!!!
Mas a História ensina, e Ramzan Kadyrov e os tchetchenos deviam estudá-la para perceber que, apesar de todos os abomináveis campos de concentração e extermínio que possam construir, há sempre uma centelha de vida que escapa ao encarceramento e que subsiste! E no curso implacável e imparável da História, percebe-se que o mundo é de uns e de outros, e que aqueles que como o mitológico Narciso, incapazes de olhar os outros, se apaixonam por si e pela sua própria imagem têm um triste fim.

Ler artigo completo ...