ASSÉDIO NO AUTOCARRO

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Olá  Capazes. Queria partilhar um episódio de assédio que ocorreu num transporte público e que me deixou bastante perturbada. Queria com vocês compreender o que podia ter feito e não fiz. Compreender se é o sistema que falha, ou se eu, e as várias mulheres que passaram e passarão por isto, poderiam ou poderão fazer algo.
No dia 4 de abril de 2017 apanhei o autocarro número 435 da TST pelas 19h20. A caminho do meu destino, Lisboa, enquanto falava ao telemóvel, encostei-me a uma janela atrás do motorista e, algum tempo depois, começo a sentir uma espécie de vibração no lado esquerdo da minha anca. Achei a sensação natural visto que o autocarro, quando está em movimento, costuma tremer imenso, e eu estava encostada à entrada do cinto de segurança. Entretanto, a menos de 5 minutos da última paragem, que era o meu destino, o autocarro parou num semáforo. Contudo, apesar do autocarro estar parado, continuei a sentir aquela espécie de vibração na anca, que já começava a ficar “dormente”. É difícil explicar a sensação. Imaginem que esfregam durante muito tempo a vossa mão na pele: é essa a sensação. Assim, achando estranho o facto do autocarro já não estar a tremer, decidi olhar, com algum medo do que pudesse ser (pensei que talvez fosse um bicho) e foi então que vi uma mão enfiada entre a “parede” do autocarro e o banco onde me encontrava sentada, a esfregar a minha anca.
O meu primeiro sentimento foi de confusão e a minha primeira reação foi afastar-me da mão e olhar para o homem, que devolveu o olhar. Era um homem caucasiano, de cabelo castanho aos caracóis e olhos castanhos. Passaram-me pela cabeça várias coisas que poderia dizer, mas fiquei calada. Senti um misto de nojo, vergonha e pavor. Virei-me para a frente, olhei novamente para a mão e ela continuava lá. Mudei-me para o assento do lado e respirei fundo. Pensei de imediato “tiro uma foto da mão e chamo a polícia”. Infelizmente, ao ter usado flash (caso contrário, não daria para ver a mão) o homem teve tempo de a afastar, mas consegui apanhar o resto da mesma. Contudo, percebi que a polícia não iria chegar a tempo de apanhar este homem, visto que já estávamos a menos de dois minutos da última paragem. Então, a minha segunda decisão foi contactar alguém próximo por forma a perceber o que poderia fazer naquele momento. Sentia-me em pânico. Sentia-me paralisada. Aconselharam-me a ignorá-lo, a afastar-me e a mudar de lugar. Chorei. Chorei imenso. Imaginei todas as mulheres que sofreram, sofrem e sofrerão no futuro com situações semelhantes ou piores, e que têm de “mudar de lugar”. A dor que a mulher sente nesta sociedade. Revoltei-me. Comecei a discursar pelo telemóvel, irritada. Porque é que EU tenho de mudar? Não sabia o que fazer. Pus a hipótese de falar com o motorista do autocarro para que impedisse as pessoas de saírem até a polícia chegar, ao que me responderam “Se calhar até pode fazer pior”. E eu, infelizmente, concordei. Infelizmente, se fosse uma mulher, não pensaria duas vezes. Fiquei sem saber o que fazer. Se me levantasse e começasse a ameaçar o homem, ele iria desmentir. Se eu chamasse posteriormente a polícia o homem fugia, visto que, ao perceber que eu tinha tirado a foto, levantou-se de imediato e pôs-se à saída do autocarro à espera que este chegasse à última paragem.
Saí do autocarro por último. Tremia por todos os lados. Vinha-me à cabeça o que podia ter feito. Podia ter gritado para que as pessoas fixassem a cara deste indivíduo. Mas não o fiz.  Não me ensinaram a lidar com o assédio sexual como me ensinaram, por exemplo, a lidar com um assalto.
Aquela sensação de dormência ainda estava lá. Aquele nojo, aquela culpa, aquela revolta… Sentimentos que ainda cá andam… Sentimentos que muitas vezes são experimentados pelas pessoas que passaram e vão passar por situações semelhantes ou piores. Sentimentos injustos…

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