PARA TI, AMANDA

28036

Gostava que esta não fosse uma história real. Gostava que imaginássemos que isto pudesse acontecer, mas tudo acontecia no mundo da ilusão, do faz-de-conta. Isto seria apenas uma fábula que nos transmitiria uma lição, e nós, obedientes, lá lhe dedicávamos três minutos em reflexão e esqueceríamos no momento seguinte. Mas esta história é real, faz doer o coração, faz-nos sentir vergonha alheia, vergonha de nós próprios e do mundo. Esta é uma história sem um final feliz.

A personagem principal é Amanda Rodrigues, de 19 anos, que nunca chegará a festejar os 20 porque morreu no passado dia 17 de janeiro. Perdeu a vida porque queria que as pessoas gostassem dela. Morreu porque queria ouvir coisas bonitas, porque queria deixar de ter vergonha de ir ao cinema, de ir almoçar à cantina, até de ir à escola. Morreu porque nós, o mundo, ditamos que ser-se gordo é feio. Morreu pela nossa intolerância, pelo nosso mundo fútil e por um estereótipo de beleza que não deveria existir. Que não pode existir.

Num relato emocionante, a irmã de Amanda, Mayara Rodrigues, explica que durante a sua curta vida, Amanda sofria de bullying. Ser “boa de coração e cheia de alegria” não chegava a Amanda que, embora lutasse contra, continuava a engordar de ano para ano.

“Amanda não podia sentar na mesma mesa das meninas na hora do lanche, não podia ser do mesmo grupo nas brincadeiras na hora do parquinho e da educação física, e muito menos conviver junto na sala de aula”.

E os meninos? “Ah os meninos batiam nela, por diversas vezes Amanda chegou a casa machucada, espancada, com as perninhas roxas. Em uma das vezes que ela nos contou de mais um dia terrível de aula, ela disse-nos que desceu para o lanche, e quando subiu, as suas coisas estavam rasgadas e no chão da sala. Rasgaram tudo, seu caderninho, seu estojo, sua mochilinha. Estava tudo rasgado no chão.”

Também os adultos compactuaram com isto. “Os apelidos? Eram vários, de todos os tipos. Até alguns professores já apelidaram a minha irmã. Muitas vezes eu escutei dos meus parentes na frente dela “Olha Mayara, você está engordando, vai ficar igual à sua irmã”.

Amanda, a menina fascinada pelo mundo da maquilhagem e da beleza, “nunca foi aceite como pessoa normal”, chegando mesmo a faltar às provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no Brasil, por vergonha de não caber na cadeira. “As pessoas sempre a discriminaram. As pessoas olhavam a minha irmã de uma forma diferente. Ela sentia vergonha de tudo, ela não ia ao shopping à noite por vergonha das pessoas. Ela não ia ao mar, e fazia muito tempo que não sabia nem como era pisar na areia.”

Amanda nunca conseguiu entrar numa loja e escolher uma peça de roupa que ela quisesse, por isso, vestia o que havia, mesmo que não gostasse. Mayara conta, num texto emotivo partilhado por si no Facebook, que ouviu muitas vezes da sua irmã um “estou-me sentido muito feia, mas era a única coisa que cabia em mim”.

Depois de várias tentativas frustradas em dietas, médicos, tratamentos, exercício físico, Amanda e a sua família chegaram à conclusão que a intervenção cirúrgica era a única solução. Amanda queria ser “bonita” queria que as pessoas gostassem dela e por isso decidiu submeter-se a uma operação para ficar magra.

“Eu vou ficar bonita, as pessoas vão gostar de mim (…) este sofrimento vai acabar, irmã (…) eu vou vestir o 38”, afirmou a Mayara carregada de brilho nos olhos.

O pós-operatório não correu bem e Amanda perdeu a vida devido a uma embolia pulmonar causada por coágulos de sangue. A família acusa o médico de negligência, mas foram as regras de beleza deste mundo em que vivemos que mataram Amanda. Quem dita que ser gordo é feio? Quem diz que ser muito magro é ainda pior? Porque nos obrigamos a ser aquilo que não somos? A lutar contra a vontade de apreciar uma refeição entre amigos, a não vestir um vestido porque temos umas “banhinhas” a mais? Quem é que define o “a mais” e porque é que esse conceito tem de ser definido? Quando é que vamos abrir a mente e aceitar o todo como belo? Quando é que vamos deixar de apontar o dedo ao outro? Quando é que vamos deixar de nos culpar por não sermos iguais às mulheres criadas em Photoshop? Quando é que vamos deixar de nos matar?

Perdoa-nos, Amanda.

“O carro continua na garagem. Os seus perfumes continuam no armário. Sua cama ainda está aqui. Sua bolsa está pendurada no lugar de sempre. Seus sapatinhos estão onde você deixou. Sua gatinha está te procurando. Mas você, irmã, você nunca mais vai voltar. Eu te amo, para sempre”.

 

Filipa Santos Araújo