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Nunca gostei de me sentir observada. Minutos mais tarde começaram os assobios. Ignorei. Procurei nunca fixar-lhes o olhar, estratégia que ainda hoje mantenho. Fingir que nada se passa, que não percebi, que não era comigo. Discretamente, verifiquei que estes homens eram os funcionários das camionetas. Sei-o porque reconheci um deles, que era pai da minha melhor amiga da escola primária.
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Pergunto-me quais terão sido as consequências deste meu silêncio, motivado pela vergonha. Sem ter feito nada de errado, este episódio de tentativa de sedução de um homem mais velho contribuiu para incentivar em mim uma submissão silenciosa e cheia de vergonha no que diz respeito aos avanços agressivos dos cães que ladram, mas principalmente dos que não ladram. Como se de certa forma eu, o meu corpo, fossemos culpados do que tantas vezes acontece quase sem acontecer.
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Era uma vez uma rapariga que sonhava tornar-se uma grande advogada. «Uma senhora advogada?», troçavam as pessoas. «Não sejas tonta! Os advogados e os juízes são sempre homens.» Ruth olhou à sua volta e percebeu que era verdade. «Mas não vejo nenhuma razão para isso não poder mudar», pensou consigo própria.
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Eu digo que vou estender a roupa e peço-te para mexeres o arroz. Estás a ver a palavra: “peço-te”. É disso que estou farta! Cá em casa não quero ser chefe de distribuição de tarefas. Eu sei que tu ajudas. Eu coloco o arroz e tu mexes, com uma mão. A outra segura o telemóvel com o jogo. Eu vou preparar as mochilas e peço-te para pores a mesa. Tu fazes! Peço-te para tirares o escorredor para a massa e tu perguntas: “onde está?”. Só me vejo em modo desenho animado a fumegar pelas orelhas. Há quanto tempo aqui vives?
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foi então que a responsável me chamou. Falou-me sobre o direito que todos temos ao amor, a uma família. Disse-me: "A vida é lá fora!". O voluntariado e as instituições são uma espécie de paliativo. É lá fora que ganhamos o peso certo do que somos. E cada dia tem um incalculável peso na vida de quem está institucionalizado. Quando cada um de nós pensa na co-adopção sem se despir de preconceitos, valores pessoais, experiências ou teorias morais, jamais poderá sentir apenas o que interessa: o direito a ser amado. O direito a viver lá fora, nos braços de quem está disposto a acolher.
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Em tempos, em Bogotá, na Colômbia, havia uma costureira que também era espiã. O seu verdadeiro nome era segredo, mas a maioria das pessoas chamava-lhe Policarpa Salavarrieta. Quando era pequenina, a avó de Policarpa ensinou-a a coser. Mal ela sabia que, um dia, as suas aptidões para a costura a iriam ajudar a desencadear a revolução no seu país.
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No dia seguinte, passo novamente pelo seu posto de trabalho e ele estava com uma colega, tendo-me interpelado e questionado sobre o que lhe iria oferecer como presente pelo seu 65º aniversário. Na brincadeira, disse-lhe que nada, pois sou emigrante, e nós que emigramos, não temos dinheiro para presentes. Emanuel teve então o descaramento de me dizer que lhe podia oferecer uma foto minha sem roupa ou então umas cuecas usadas. A colega ficou sem reação, eu peguei no que tinha para fazer, virei costas, ignorei, e regressei ao meu posto de trabalho.

Vamos ao que interessa: quem se sentar nas cadeiras do cinema para ver este filme, vai assistir a uma história de amor lindíssima, profundamente comovente e verdadeira entre uma actriz que ganhou um Oscar nos anos 50 e que caiu no esquecimento e um actor e operário de Liverpool, Peter Turner, 30 anos mais novo, que luta por um lugar ao Sol no meio artístico.
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Anália Torres, socióloga e feminista, herdou o nome da avó que lhe ensinou as coisas mais importantes que aprendeu na vida. Nesta entrevista ajuda-nos a perceber a origem das desigualdades entre homens e mulheres e o caminho a percorrer para que se dissipem. Um luxo e um prazer, ouvi-la.
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Entrevistas Destaques

  1. Porque te amas?
Amo-me já aceitei que não temos de ser perfeitas para sermos felizes.  
  1. Já qu...

ULTIMAS CRÓNICAS

Nunca gostei de me sentir observada. Minutos mais tarde começaram os assobios. Ignorei. Procurei nunca fixar-lhes o olhar, estratégia que ainda hoje mantenho. Fingir que nada se passa, que não percebi, que não era comigo. Discretamente, verifiquei que estes homens eram os funcionários das camionetas. Sei-o porque reconheci um deles, que era pai da minha melhor amiga da escola primária.
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Pergunto-me quais terão sido as consequências deste meu silêncio, motivado pela vergonha. Sem ter feito nada de errado, este episódio de tentativa de sedução de um homem mais velho contribuiu para incentivar em mim uma submissão silenciosa e cheia de vergonha no que diz respeito aos avanços agressivos dos cães que ladram, mas principalmente dos que não ladram. Como se de certa forma eu, o meu corpo, fossemos culpados do que tantas vezes acontece quase sem acontecer.
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Eu digo que vou estender a roupa e peço-te para mexeres o arroz. Estás a ver a palavra: “peço-te”. É disso que estou farta! Cá em casa não quero ser chefe de distribuição de tarefas. Eu sei que tu ajudas. Eu coloco o arroz e tu mexes, com uma mão. A outra segura o telemóvel com o jogo. Eu vou preparar as mochilas e peço-te para pores a mesa. Tu fazes! Peço-te para tirares o escorredor para a massa e tu perguntas: “onde está?”. Só me vejo em modo desenho animado a fumegar pelas orelhas. Há quanto tempo aqui vives?

foi então que a responsável me chamou. Falou-me sobre o direito que todos temos ao amor, a uma família. Disse-me: "A vida é lá fora!". O voluntariado e as instituições são uma espécie de paliativo. É lá fora que ganhamos o peso certo do que somos. E cada dia tem um incalculável peso na vida de quem está institucionalizado. Quando cada um de nós pensa na co-adopção sem se despir de preconceitos, valores pessoais, experiências ou teorias morais, jamais poderá sentir apenas o que interessa: o direito a ser amado. O direito a viver lá fora, nos braços de quem está disposto a acolher.
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Crónicas Destaque

Esperam que sejas magra. Atlética. Que corras todos os dias. Ou dia sim, dia não, vá. De depilação feita e unhas coloridas. Que faças bolos ao sábado. E que não tenhas as raízes do cabelo por fazer. Esperam que te comportes bem e que nunca bebas um copo a mais para não caíres em figuras ridículas. Que nunca sejas daquelas que urina entre dois carros, no meio do Cais do Sodré.

Voltou a olhar para mim, semicerrou os dentes e baixinho perguntou-me, pausadamente: “Com quantos gajos estiveste?”. Ele parecia furioso e eu fiquei com medo porque não sabia qual era, para ele, a resposta certa, mas arrisquei e respondi-lhe novamente, “Só contigo, Pedro. Conhecemo-nos pouco tempo depois de eu cá chegar”. Lembro-me de acordar no dia seguinte. Sentia dores no corpo todo, devia ser da ansiedade e daquela tensão. Já sabes que odeio discutir, sobretudo com ele. Tenho medo que se farte de mim...

A partir do momento em que viram o meu corpo inerte, ninguém perguntou onde estava o filho da puta que acabou com os meus sonhos, as minhas esperanças, a minha vida. Não, preferiram começar a fazer-me perguntas inúteis. A mim, podem imaginar? Uma morta, que não pode falar, que não se pode defender. Que roupa estava a usar? Porque é que estava sozinha? Porque é que uma mulher quer viajar sem companhia?

Carol perdoa-lhes: acham que podem opinar sobre o teu decote, sobre o teu peito. Acham que têm o direito de te dizer o que podes ou não vestir #nomeudecotemandoeu

Ultimos Artigos

Era uma vez uma rapariga que sonhava tornar-se uma grande advogada. «Uma senhora advogada?», troçavam as pessoas. «Não sejas tonta! Os advogados e os juízes são sempre homens.» Ruth olhou à sua volta e percebeu que era verdade. «Mas não vejo nenhuma razão para isso não poder mudar», pensou consigo própria.
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Em tempos, em Bogotá, na Colômbia, havia uma costureira que também era espiã. O seu verdadeiro nome era segredo, mas a maioria das pessoas chamava-lhe Policarpa Salavarrieta. Quando era pequenina, a avó de Policarpa ensinou-a a coser. Mal ela sabia que, um dia, as suas aptidões para a costura a iriam ajudar a desencadear a revolução no seu país.
2968

Vamos ao que interessa: quem se sentar nas cadeiras do cinema para ver este filme, vai assistir a uma história de amor lindíssima, profundamente comovente e verdadeira entre uma actriz que ganhou um Oscar nos anos 50 e que caiu no esquecimento e um actor e operário de Liverpool, Peter Turner, 30 anos mais novo, que luta por um lugar ao Sol no meio artístico.
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Esta história é real, faz doer o coração, faz-nos sentir vergonha alheia, vergonha de nós próprios e do mundo. Esta é uma história sem um final feliz. A personagem principal é Amanda Rodrigues, de 19 anos, que nunca chegará a festejar os 20 porque morreu no passado dia 17 de janeiro. Perdeu a vida porque queria que as pessoas gostassem dela.

Jovem, 25 anos, com mestrado, com licenciatura, com formação profissional, a frequentar pós-graduação, com experiência, extremamente motivada para pôr “as mãos à obra” e disposta a receber pouco por isso, até mesmo a ser um bocadinho explorada (mas atenção, nada de exageros!). Aparentemente são características que os empregadores procuram, certo?

do Autor/a da Criada Malcriada
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