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O erro do manifesto não é [somente] afirmar que é absurdo criminalizar a paquera insistente, o roubar beijo, o importunar, mas sim considerar isso um direito do homem e romantizar os homens que assim agem como sedutores desajeitados, perdoando-os por antecipação sem considerar a provável consequência dessa irrestricta liberdade. É como afirmar e dotar o homem (de novo insisto, refiro-me ao género) da possibilidade de poder e domínio sobre o corpo alheio.

A vítima de violência doméstica não pode ter um curso superior. Toda a gente sabe que a mulher vítima de violência doméstica é uma pobre coitada iletrada, tantas vezes ignorante, que nada percebe do mundo e da vida, só assim se compreendendo que vá ficando com um marido agressor. Se uma mulher letrada, com elevados níveis de formação, se queixa de violência doméstica, é porque está a mentir (e quer ficar com os bens todos no divórcio).

“Quando tinha 9 nove anos estreei-me no ténis, era muito boa jogadora, mais pequenina do que as colegas da minha idade e, por isso, era mais rápida. Aos 10 anos houve um treinador que me assediou. Começou por ser uma brincadeira (achava eu), e foi-se esticando, ele a ver até onde conseguia ir. A situação durou uns 3 três meses, e eu, uma criança de 10 anos que só pensava em jogar ténis e em fazer ginástica rítmica, fui confrontada pela primeira vez com o sexo. Demorei 3 TRÊS MESES até ganhar coragem para contar aos meus pais. Sabe porquê, querida Catherine? Porque, na minha cabeça inocente, achava que a culpa era minha e tinha uma vergonha GIGANTE. Não fui violada, fui assediada.”

do Autor/a da Criada Malcriada www.facebook.com/veronicadivorciada http://www.facebook.com/acriadamalcriada
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Convém sempre mencionar algo relacionado com a cozinha e a vida familiar quando escrevemos sobre uma mulher, não vão as pessoas achar que não se trata de uma senhora decente e completa. Depois ficamos a saber as preferências alimentares, que tem “um fraquinho por diospiros” e que ainda hoje lhe chamam “Joaninha” porque é pequena. Já que estamos a abordar a vida de Joana Marques Vidal, podia aproveitar-se para falar no seu percurso académico ou no que a levou a segui-lo, mas isso é chato de ler. Eu cá prefiro saber que prefere carne a peixe!

As mulheres eram fantasmas. Ainda antes de entregarem o corpo à terra tornavam-se naturalmente invisíveis. Era o esperado. Ficavam presas a alcunhas que saltavam das bocas da aldeia para os registos que se faziam. Um só nome no baptismo. A alcunha como sobrenome nos seguintes. No casamento. Na morte. Nos nascimentos dos filhos que quando nasciam elas tinham a mesma sorte. 

Nunca eu imaginei ou vivi uma situação em que existisse realmente sedução e a minha vontade estivesse a ser ignorada ou manipulada. Isso não é sedução, isso é importunação (aquilo que as outras dizem que é normal – NÃO É), manipulação, imposição, coerção, assédio. Sedução é outra coisa. Para existir realmente sedução os dois lados têm que estar minimamente empenhados – se só um está a gostar, se só um está a participar de livre vontade e com prazer, então não é sedução é coerção. Será assim tão difícil de perceber isto? Eu tenho cá para mim que nem em teoria é difícil, nem na prática.

Talvez até os negros (as) também não queiram se ocupar deste debate de camisolas e macacos, afinal a sobrevivência nos custa, falar acerca dela custa o dobro, demanda tempo, reflexão, oportunidade de escrita, de espaço para divulgação, de coragem para posicionar-se no mundo. Basta observar e logo se percebe que há poucos negros e negras ocupando espaços de decisão, são excluídos até da possibilidade de opinar acerca do seu consumo. Que negros e negras querem usar esta camisola?
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Anália Torres, socióloga e feminista, herdou o nome da avó que lhe ensinou as coisas mais importantes que aprendeu na vida. Nesta entrevista ajuda-nos a perceber a origem das desigualdades entre homens e mulheres e o caminho a percorrer para que se dissipem. Um luxo e um prazer, ouvi-la.
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Entrevistas Destaques

  1. Porque te amas?
Amo-me já aceitei que não temos de ser perfeitas para sermos felizes.  
  1. Já qu...

ULTIMAS CRÓNICAS

O erro do manifesto não é [somente] afirmar que é absurdo criminalizar a paquera insistente, o roubar beijo, o importunar, mas sim considerar isso um direito do homem e romantizar os homens que assim agem como sedutores desajeitados, perdoando-os por antecipação sem considerar a provável consequência dessa irrestricta liberdade. É como afirmar e dotar o homem (de novo insisto, refiro-me ao género) da possibilidade de poder e domínio sobre o corpo alheio.

A vítima de violência doméstica não pode ter um curso superior. Toda a gente sabe que a mulher vítima de violência doméstica é uma pobre coitada iletrada, tantas vezes ignorante, que nada percebe do mundo e da vida, só assim se compreendendo que vá ficando com um marido agressor. Se uma mulher letrada, com elevados níveis de formação, se queixa de violência doméstica, é porque está a mentir (e quer ficar com os bens todos no divórcio).

“Quando tinha 9 nove anos estreei-me no ténis, era muito boa jogadora, mais pequenina do que as colegas da minha idade e, por isso, era mais rápida. Aos 10 anos houve um treinador que me assediou. Começou por ser uma brincadeira (achava eu), e foi-se esticando, ele a ver até onde conseguia ir. A situação durou uns 3 três meses, e eu, uma criança de 10 anos que só pensava em jogar ténis e em fazer ginástica rítmica, fui confrontada pela primeira vez com o sexo. Demorei 3 TRÊS MESES até ganhar coragem para contar aos meus pais. Sabe porquê, querida Catherine? Porque, na minha cabeça inocente, achava que a culpa era minha e tinha uma vergonha GIGANTE. Não fui violada, fui assediada.”

Convém sempre mencionar algo relacionado com a cozinha e a vida familiar quando escrevemos sobre uma mulher, não vão as pessoas achar que não se trata de uma senhora decente e completa. Depois ficamos a saber as preferências alimentares, que tem “um fraquinho por diospiros” e que ainda hoje lhe chamam “Joaninha” porque é pequena. Já que estamos a abordar a vida de Joana Marques Vidal, podia aproveitar-se para falar no seu percurso académico ou no que a levou a segui-lo, mas isso é chato de ler. Eu cá prefiro saber que prefere carne a peixe!

Crónicas Destaque

Esperam que sejas magra. Atlética. Que corras todos os dias. Ou dia sim, dia não, vá. De depilação feita e unhas coloridas. Que faças bolos ao sábado. E que não tenhas as raízes do cabelo por fazer. Esperam que te comportes bem e que nunca bebas um copo a mais para não caíres em figuras ridículas. Que nunca sejas daquelas que urina entre dois carros, no meio do Cais do Sodré.

Voltou a olhar para mim, semicerrou os dentes e baixinho perguntou-me, pausadamente: “Com quantos gajos estiveste?”. Ele parecia furioso e eu fiquei com medo porque não sabia qual era, para ele, a resposta certa, mas arrisquei e respondi-lhe novamente, “Só contigo, Pedro. Conhecemo-nos pouco tempo depois de eu cá chegar”. Lembro-me de acordar no dia seguinte. Sentia dores no corpo todo, devia ser da ansiedade e daquela tensão. Já sabes que odeio discutir, sobretudo com ele. Tenho medo que se farte de mim...

A partir do momento em que viram o meu corpo inerte, ninguém perguntou onde estava o filho da puta que acabou com os meus sonhos, as minhas esperanças, a minha vida. Não, preferiram começar a fazer-me perguntas inúteis. A mim, podem imaginar? Uma morta, que não pode falar, que não se pode defender. Que roupa estava a usar? Porque é que estava sozinha? Porque é que uma mulher quer viajar sem companhia?

Carol perdoa-lhes: acham que podem opinar sobre o teu decote, sobre o teu peito. Acham que têm o direito de te dizer o que podes ou não vestir #nomeudecotemandoeu

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Melba começou a tocar trombone todos os dias. Tentou ter aulas, mas não se deu bem com o professor. «Vou aprender sozinha. Vou improvisando», disse. Foi difícil, mas adorava o som bruto e estridente que saía daquele instrumento. Passado um ano, já tocava suficientemente bem para solar com o seu trombone na estação de rádio local.
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«Outra vez não, Maya», choramingava a mãe ao ver a filha sair para a praia. «Estás sempre fria e molhada, e os outros surfistas são todos rapazes!» Mas Maya não queria saber: surfar era a paixão dela. «Os rapazes lá terão de se habituar a mim!», dizia.
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Esta história é real, faz doer o coração, faz-nos sentir vergonha alheia, vergonha de nós próprios e do mundo. Esta é uma história sem um final feliz. A personagem principal é Amanda Rodrigues, de 19 anos, que nunca chegará a festejar os 20 porque morreu no passado dia 17 de janeiro. Perdeu a vida porque queria que as pessoas gostassem dela.

Jovem, 25 anos, com mestrado, com licenciatura, com formação profissional, a frequentar pós-graduação, com experiência, extremamente motivada para pôr “as mãos à obra” e disposta a receber pouco por isso, até mesmo a ser um bocadinho explorada (mas atenção, nada de exageros!). Aparentemente são características que os empregadores procuram, certo?

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