A GENINHA

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Parar na passadeira tornara-se uma rotina agradável para uma mulher. Era aí que conseguia ver outra, que de passo seguro, queixo ligeiramente levantado, ombros largos e bem abertos e um olhar que gritava “Não devo nada a ninguém, nem quero saber da opinião de ninguém”, atravessava a rua. A sua presença impunha-se sem que ela dissesse uma palavra. Nem era preciso um contacto direto para que o seu porte marcasse. Aliás, nunca tinham trocado duas palavras, nunca tinham partilhado sequer um mesmo espaço, nunca se tinham cruzado dentro de um café ou outro local qualquer onde pudessem interagir. Uma não conhecia a outra. Mas uma sentia o poder da sua presença sem que a outra a visse sequer, nem na sua visão periférica ela era presença. Esta outra, se confrontada com a pergunta: “Conhece esta mulher?”, teria que responder um não absoluto. E no entanto, aquela uma conhecia-a, apesar da sua fraca, aliás péssima, memória para rostos, seria capaz de a identificar no meio de uma multidão. Não pelo nome, esse desconhecia-o, nunca o ouvira nem à sua boca nem à de ninguém.

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