A TOXICIDADE ESTÁ NOS PAIS E NÃO NAS VACINAS

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“Ana alega falta de confiança nas vacinas e questiona a sua composição, com receio que sejam tóxicas. Lembra também um estudo que relacionou a vacina do sarampo com problemas intestinais nas crianças e com o aparecimento do autismo. Já Ágata Mandillo diz que, para ela, “a ciência ainda não conseguiu provar que as vacinas fazem bem nem que não fazem mal”. Lido num artigo do Observador de 22 de março de 2015 e atualizado no dia 17 de abril do ano corrente.

Surge este excerto a propósito da admissão de uma epidemia de sarampo, em Portugal, por parte do diretor-geral de Saúde. A displicência com que se pronunciam determinados assuntos faz-me acreditar que ainda há muito boa gente que julga que os filhos são propriedade dos seus pais. De facto, nesta como em muitas outras temáticas, a parentalidade garroteia as crianças, sob o subterfúgio do amor incondicional. Ninguém duvida que o amor seja incondicional, mas esse amor não pode representar uma espécie de cegueira que potenciará o surgimento de consequências nefastas.

Sabe-se que a mortalidade infantil foi sendo reduzida à medida que melhoraram as condições da água, das imposições sanitárias, do saneamento básico e da VACINAÇÃO. Logicamente que existirão sempre estudos e mais estudos dando conta de efeitos colaterais ou secundários das vacinas, assim como dos medicamentos que consumimos ou das cirurgias que fazemos, mas tal não nos impede de os tomar ou de as fazer quando é necessário. E, às vezes, é mesmo necessário. Mais, é imperativo!

Não vacinar os filhos com base no pressuposto de que os efeitos secundários poderão ser mais adversos do que os benefícios que a vacina trará, é um ato grave de negligência, igual a todos os outros que envolvem as crianças. Não falamos de coisas inócuas. Os pais tomam decisões pelos filhos até eles completarem a maioridade. Uns resolvem furar as orelhas às meninas, outros optam por serem elas a decidir sobre o assunto quando tiverem idade. Uns resolvem batizá-los em bebés, outros esperam que sejam eles a decidir se querem o batismo. Tudo certo e muito bem! Mas aqui não há espaço para tópicos relacionados com a negligência, nomeadamente com a recusa do acesso à saúde, quando esta é fortemente indicada.

Falam de uma moda. Não quero crer que o seja. Não quero, sequer, imaginar que o seja. Moda? Moda é ser-se consciente, humilde e responsável. Moda é trazer à parentalidade o dever de cuidar, independentemente dos dogmas pessoais. Moda é destituir-se o uso de propriedade no que concerne aos filhos. Estes são cidadãos do mundo e para o mundo. Não são expansões dos pais, não são extensões de crenças e não são objetos passíveis de experiências que podem culminar em fatalidade.

Aguardaremos que o surto de Sarampo que se vive em Portugal não traga amarguras trágicas a mais nenhuma família e que rapidamente tudo isto não passe de uma triste lembrança. Mas que sirva para que os opositores da vacinação façam uma introspeção séria, informada e consciente.