AMOR EM TEMPOS DE FEMINISMO

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«Epá, as feministas são cá umas chatas. Não gostam de nada, é tudo machismo, assédio, discriminação. Que melgas. Nem ao piropo acham graça. O que elas precisavam sei eu.»

E por aí fora, para não entrarmos no puro mau gosto. Este tipo de discurso é recorrente. Agora que estamos no São Valentim e que muitos casais se preparam para celebrar (ou não) uma data que, embora seja uma criação comercial cheia de estereótipos, acaba por suscitar debate sobre o amor e os relacionamentos, podemos aproveitar para colocar algumas questões.

A sedução acabou? Não se pode atirar um piropo bem-disposto? Já não se oferecem flores, chocolates ou ursinhos de peluche porque é foleiro, é um cliché estafado? As feministas não gostam de romance? Como se conquista uma feminista?

Temos muitas questões e poucas respostas. O amor é um mistério. Sempre foi e sempre será. As representações do amor na ficção – no cinema, nos livros, na música – e na publicidade, sempre ajudaram a baralhar tudo. Ao longo do tempo, essas ficções contribuíram para consolidar alguns clichés. O homem conquista, a mulher é conquistada. A mulher procura um homem que a proteja e até que a domine. O homem, mesmo amando uma mulher, preserva a sua liberdade e mantém outras relações. (Não é por acaso que um grande clássico da ficção é o homem que mantém toda a vida a mulher e a amante). O homem não suporta os ciúmes, a mulher tolera-os. O homem de meia-idade mantém-se sexualmente activo e desejável. A mulher de meia-idade perde a aura sexual. São alguns exemplos entre muitos outros.

Estes padrões comportamentais condicionam a forma como vivemos o amor e as relações, como se tivéssemos que obedecer ao guião e cumprir um papel previamente escrito. Apesar de tudo, as relações são hoje mais livres e provavelmente mais complicadas. Antigamente, a mulher resguardava-se, esperava pacientemente a conquista masculina, preparava-se para um casamento de sonho ao qual se resignaria mesmo que se transformasse em pesadelo. Hoje as opções multiplicaram-se. Casar, namorar, ir namorando, flirtar, tentar a felicidade com vários parceiros até assentar. Ou não assentar nunca, continuando a busca incessante pela relação que nos preencha.

E como se seduz hoje em dia? Já não se segura a porta para a senhora passar? Não se afasta a cadeira no restaurante para ela se sentar? Não se paga o jantar? O cavalheirismo ainda faz sentido? Por um lado, parece obsoleto falar nisto quando há cada vez mais pessoas a relacionarem-se através de aplicações de encontros ou quando existem sites especializados em traições. Por outro lado, há uma certa nostalgia do tempo em que os encontros eram sempre cara a cara e em que não se ia para a cama sem antes passar pelo cinema ou pelo restaurante.

Na verdade, a sedução também continua a ser um mistério. Quem sabe o que resulta?! Usar uma app ou oferecer flores são meros acessórios. O enigma da sedução, da paixão e do amor permanece imune a modas, tendências e tecnologias.

E então, como se conquista uma feminista, afinal? Com inteligência, certamente. E muito jeitinho.