ANIQUILADA por Sara Trigo

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Encostada ao balcão da cozinha, limpando distraidamente as mãos no pano húmido do vapor do tacho, olhou para as horas: 20:37. Sorriu, atenta ao som da rua, esperando ouvi-lo chegar a qualquer momento. Estava satisfeita por ter, uma vez mais, conseguido trabalhar certinho durante o dia para chegar a casa a tempo de lhe pôr o jantar na mesa assim que chegasse.

Sofia adorava o seu trabalho e que este lhe tomasse a maior parte do dia, mas ansiava sempre pelo regresso a casa, quando podia voltar a abraçar o namorado, partilhar com ele uma refeição quente de refúgio ao inverno, ouvir-lhe o som delicioso das gargalhadas sonoras e perder-se no timbre melodioso da sua voz. Parecia-lhe incrível que ao fim daquele tempo todo ele ainda fosse capaz de lhe deixar um sorriso palerma na cara com a maior das facilidades. Mesmo não estando presente.

Ouviu a chave rodar na fechadura. Compôs o cabelo, espreitou o seu reflexo no vidro da varanda e dirigiu-se a ele, que passou por ela sem a olhar, atirando-lhe algo que se assemelhou – mas não o podia garantir – a um “olá”.

Sofia encolheu os ombros, resignada. Nunca sabia com qual das personalidades contar: a carinhosa, a apaixonada, a violenta, a irritada ou a indiferente. Parecia que naquela noite tinha direito à visita das duas últimas.

Espreitou pela porta da sala e deu com ele sentado no sofá com o computador no colo, provavelmente a corrigir alguma proposta urgente, como eram todas.

Serviu as sopas, incapaz de perceber como chegara ali. Dois anos antes, ele roubara-lhe o coração, arrancando-a da simples tranquilidade da sua vida de solteira, com as suas palavras sussurradas aos ouvidos, as mãos ávidas e as promessas de uma vida entusiasmante. Deixara-se levar, deslumbrada pela forma como um outro ser humano era capaz de a admirar, beijar e abraçar, como se tivesse necessidade dela para ser feliz. Até que descobriu, tarde demais, que a felicidade dele não passava por um compromisso, não para já, talvez um dia. Pelo que Sofia ficou, lutou todos os dias por ser a melhor versão de si mesma e para o fazer ver quão melhor sabe a vida quando é partilhada.

Aos poucos deixou de reconhecer em si a Sofia original, que acabara por dar lugar a uma Sofia feita à imagem e semelhança de um António ainda insatisfeito, ainda não convencido, ainda escorregadio. E todos os dias acordava esperançada de que o esforço compensasse e que tivesse, finalmente, direito à tal vida entusiasmante que lhe tinha sido prometida. E todos os dias adormecia angustiada, vendo o tempo passar, o amor por assentar e a família por nascer, não sabendo se deveria continuar até, possivelmente, chegar aonde queria, ou se estaria na altura de deitar tudo a perder, correndo o risco de nunca mais voltar a encontrar o amor.

Por fim, meio ano antes, a perseverança acabara por vencer, levando para casa a taça de uma vida a dois, plena de felicidade, finalmente em paz, sem lutas, sem provas.

Pelo menos assim esperara. Era assim que seria suposto ser.

No entanto, ultimamente eram mais as noites em que adormecia tarde, já não embalada mas incomodada pelo ressonar desprendido dele, enquanto ali ao lado, a escassos centímetros por cima do mesmo lençol, Sofia se debatia, na corda bamba da felicidade e da infelicidade, da certeza e da incerteza. Naquela casa não havia espaço para uma Sofia mal-humorada, cansada ou angustiada. Não havia condições para exigir respeito nem para fazer valer a sua vontade. Naquela casa que se geria de acordo com os horários e as necessidades dele, uma Sofia submissa sonhava rente ao chão, engolia as suas próprias angústias e acabava a noite a lavar os tachos em que as cozinhara.

Pousou os pratos de sopa na mesa e disse-lhe, num sorrido forçado:

– Olá para ti também! Como foi o teu dia?

Sem levantar os olhos do que fazia, António respondeu:

– Sofia, não vês que não estou a brincar? Tenho um prazo superapertado para cumprir, não tenho tempo para isto.

– Estas duas frases tomaram-te mais tempo do que dares-me um beijo… – murmurou entredentes, começando a comer a sopa. – Tens a sopa pronta.

António pousou o computador no sofá com mais força do que a que seria necessária, sentou-se diante dela e perguntou:

– Que é essa cara? Amuaste, foi? Como te disse, não tenho tempo, nem cabeça!, para estas coisas. Lamento, mas comigo isso não vai pegar. Tenho muito que fazer hoje, provavelmente nem vou dormir e preciso é que me ajudes, não que andes aí a fazer de adolescente mimada.

Num estado incomum de apatia, Sofia pousou a colher com que ainda não acabara de comer a sopa, arrastou a cadeira para trás, levantou-se, pegou na carteira e informou-o:

– Longe de mim querer incomodar-te. Vou dormir a casa dos meus pais.

Exatamente como previra, António não esboçou um gesto para a demover nem pronunciou uma palavra durante a noite e todo o dia seguinte, no final do qual voltaram a encontrar-se em casa. Contando com que ele fosse, ainda, dotado de um mínimo de sensatez, ela esperou um pedido de desculpa ou algo semelhante. No lugar disso, foi presenciada com um esgar de sobrancelhas erguidas e um Passou-te o amuo? em tom de gozo.

Sofia nunca saberá onde foi buscar a coragem – talvez só mesmo ao amor-próprio que ainda tinha, apesar de o ter dado como morto – para se dirigir ao quarto, empacotar todos os seus pertences, pousar a chave na credência situada em frente à porta, voltar-se para ele que a olhava entre o admirado e o divertido e dizer:

– Lamento que me vejas como um empecilho. Por ti, mas, sobretudo, por mim, retiro-me.

Dirigiu-se, então, à vida que a esperava e que esperavam para ela.