AS QUATRO MOSQUETEIRAS

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Somos quatro.

Estamos longe de querer ser uma outra versão das mulheres do elenco de o “Sexo e a Cidade” mas reconhecemos no nosso pequeno grupo a mesma base de sororidade que une as personagens da série.

A A., a P., a R. e a I.

Somos sempre exageradas, entusiasmadas e cheias de expectativas. Quando isso morrer em nós, acredito que a vida perde grande parte do seu enorme sentido.

Com o tempo, uma chegou à vida da outra, e outra à vida da outra, e fomos ficando na vida umas das outras por empréstimo e como parte.

Nunca mais me esqueço do dia em que a A. bebeu demais e lhe agarrei a testa numa casa de banho cheia de mulheres (e tão imprópria para utilização): ela vomitava este mundo e o outro e aproveitava para chorar algumas dores.

Ali estávamos as duas.

Eu a tentar a agarrá-la naquele cubículo pestilento para a salvar, na tentativa que nenhuma de nós saísse dali inundada em urina, água ou vómito.

Tenho para mim que às vezes é bom quando alguém nos salva.

Passamos horas a fazer clips de voz idiotas sobre o nosso dia no whatsapp e defendemo-nos com unhas e dentes. Temos espiritualidades diferentes e actividades profissionais desiguais mas estamos lá em todos os momentos de sucesso e infortúnio.

Connosco a expressão “cover my back” ganha toda uma nova força.

Dançamos, rimos juntas, mas também choramos e tentamos colar bocados do coração umas das outras quando alguém os desfez, como se do nosso próprio coração se tratasse.

Há momentos de emergência, às vezes.

Saltamos quintas históricas ou esperamos cá fora quando alguma de nós investiga alguma coisa importante para si; e ajudamo-nos, auxiliamo-nos, estamos juntas.

Não impedimos erros grosseiros de escolhas individuais umas das outras.

Sabemos que há momentos em que temos de fazer o nosso próprio caminho sozinhas e os erros ensinam-nos: não impedimos o crescimento individual de nenhuma das quatro ainda que possamos adivinhar fins quase trágicos quando alguma de nós se mete em pequenas alhadas.

Acho que, por sabermos isso, aprendemos a esperar mais à frente, sabendo que a nossa amiga se meteu num cataclismo. Aprendemos somente a ficar à espera do que sobrar dela com um cobertor, uma chávena de chá e um colo.

Este texto não é exemplo de comportamento para nenhum grupo de mulheres. Bebemos, sim. Rimos alto. Falamos de coisas impróprias para senhoras que riem baixo e este é tão-só um texto de homenagem a todas as mulheres que se apoiam e protegem umas às outras.
Às minhas, e a todas as mulheres que se juntam em sororidade “covering each other´s backs”.