CARTA ABERTA AO AMIGO DOS PRETOS E DOS GAYS

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Querido João,

Eu sei que no teu tempo a coisa era complicada. Não se dizia nada a ninguém e ia-se a umas saunas ou tinha-se uns amigos que padeciam da mesma “doença”. Casava-se com menina de bem, casadoira, boa dona de casa e parideira. E tudo às escuras, para não se ver que naquele peito não havia pelos e abdominais definidos. Nem uns ombros largos ou uma cintura direita. Pronto. Serviço feito e nasciam os filhos que se impunham. E continuavam as saunas e os encontros interditos. Mas isto… só os sortudos e intelectuais da altura. Aos outros, por vezes, destinava-se uma vida de clausura. Ou solteiros ou mal casados. O medo da prisão. O medo das palavras. Ai, como é que era? Ah… Paneleiro. Medo dos risos bêbados do “lá vai o panisgas”.

Depois, havia aqueles de quem se desconfiava mas ficava-se calado… porque escrevia muito bem. Ou cantava muito bem. Ou declamava muito bem. Ou pintava muito bem. Era qualquer coisa “muito bem”. E pronto, era lá com ele. Com a vida dele. Coisas dele. Cada um sabe “onde quer levar”. Não era, João?

Aliás, deixaste isso bem claro, quando escreveste uma mensagem para o Marcelo Rebelo de Sousa, que lamentava a morte daquele grande panilas George Michael “ó Professor, cada um gosta do que gosta e de quem gosta e ninguém tem nada com isso; mas não houve um só assessor de Vossa Excelência, unzinho, o seu amigalhaço que chefia aquele saco de gatos que governa esplendidamente o nosso país, enfim, um motorista da presidência, alguém, que tenha alertado Vossa Mercê para o facto de desperdiçar o seu luto todo com um “génio” que, ao mesmo tempo que exibia uma versatilidade e um talento que o levavam, inclusive, a espreitar as pilas alheias nos urinóis públicos, drogava-se fortemente, com ecos na juventude que o idolatra tanto quanto o excelso presidente?!”

Eh, pá. Tens razão. As pessoas deixam de ser génios musicais. Por tudo isso, viram uma valente merda. João, aplaudo-te. Vê lá bem, que o Thomas Edison dava-lhe forte e feio em doses de coca e mesmo assim inventou a lâmpada! E esse escritor de bosta, o Truman Capote… um maricas! Sabe-se lá quantos gajos comeu. Não. Não merecem o epíteto de génios. Estou contigo. Mas sei que falaste com Salvador Dali em 1977 e que gostaste. Ainda bem.

Depois… depois, naqueles tempos, tínhamos, acabadinhos de chegar das colónias ultramarinas, uns pretinhos engraçados. Aquilo não nos era estranho. O teu pai, na Fazenda do Bom Jesus, sabia bem o que era viver no meio deles. Já tínhamos recebido uma remessa deles, ao longo dos anos, mas vinham mais. A descolonização, pá! Raios partam os tipos que lhes deram liberdade e tal e eles vieram todos para cá, em magotes. Naquele 25 de abril frenético, sem rei nem roque, feito por terroristas. Que continuam a denegrir a imagem daquele que escreveste ser, para ti, “o maior estadista português”: Salazar.

Bem sei, para ti não há volta a dar, João. O dia em que se comemora a Implantação da República algo se quebra em ti. Todos os anos.

CARTA ABERTA AO AMIGO DOS PRETOS E DOS GAYS Como eu contava, há pouco, depois daquela revolução dos cravos vermelhos, que flor tão bonita para uma festa tão tresloucada… vieram os pretos. Fazer barracas à volta de Lisboa. Uma chatice. Vinham construir-nos casas e limpar escadas. Depois começaram a estudar e muitos já vinham com estudos de lá. Quem diria… escritores, músicos. E bons, e bons. Lembras-te da Titina? Muito boa, essa cabo-verdiana. E a carrada de mestiços? Como é que algum branco se misturava? Perguntavam tantos, como era possível? Agora é vê-los, no tráfico, com as calças a meio do rabo, a roubar carros e a responder mal. Uma desgraça.

Nós, João, gostávamos de Torga e Pessoa. Não íamos ler Germano de Almeida. A ouvir crioulo pelas ruas e o teatro Dona Maria a cheirar a Guiné por todo o lado. Não. E por isso sei bem que o ano passado soltaste nas redes sociais um “DEPOIS DO QUE VI HOJE SÓ ME OCORRE DIZER ISTO: RESTAUREM A MONARQUIA!” Eu sei. Resolveria tudo termos um rei não eleito. Mas respeitavas Miles Davis. Aliás, em 1971 foste buscá-lo ao camarim.

CARTA ABERTA AO AMIGO DOS PRETOS E DOS GAYS

Foi ele quem exigiu. Mas sempre era o Miles Davis… e lá lhe fizeste a vontade. Admiravas aqueles músicos.

Mas sei que ficaste contente com o Nobel de Bob Dylan. Porque sabes que ele é bom. Pergunto-te, querido João, se viste Moonlight. Aquele filme que ganhou o Óscar para melhor filme. E se viste a interpretação do preto que ganhou o Óscar para melhor actor secundário, o Mahershala Ali. Mas espera… é pior! É muçulmano! Imagina! Além de preto é o primeiro muçulmano a ganhar um Óscar. Bom, mas viste?

Gostava de saber se viste o filme. Ou se tens um filho homossexual que, desde jovem, tenha lutado, interiormente, com o não saber o que é, com o ser humilhado na escola, e o não entender os sinais. Pergunto-te se ser preto e gay é algo que se possa sobrepor a, simplesmente, ser-se bom. Se Bob Dylan fosse gay ias achar a mesma graça à atribuição do Nobel. Ou se o Nobel fosse entregue a… Miles Davis, de quem gostas tanto. Se calhar, já não teria grande piada. Mas já percebi que nos rótulos da vida, João, gostas de etiquetar tudo. É um método e eu compreendo. Também gosto de escrever nos jarros de vidro “açúcar”, “esparguete”, “canela”. Por isso, compreendo que gostes de definir bem os axiomas e premissas. Como aqui demonstras:

CARTA ABERTA AO AMIGO DOS PRETOS E DOS GAYS

Posto isto, há coisas que me confortam. Idolatravas Amália… ao menos isso. Espero, então, que esta missiva te encontre bem e que, para o ano, os Óscares sejam mais justos e que os jurados nem vejam os filmes. Votem só nos brancos. E hétero.