CLOTILDE

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……..Entrei na casa e entrei, no mesmo instante, na presença de Clotilde. Ninguém quisera aquele espaço. Aprendia agora o porquê.
……..Clotilde cansara-se da paciência impressionista, sempre disponibilizada para os outros, esbatendo as suas mágoas e ânsias ao serviço do bem alheio. Contava quem a conhecera que desapareceu sem deixar rasto, embora ali permanecesse. Uma figura morta sem corpo. Presente na ausência. Morrera cinquenta anos antes de eu cruzar aquele portão.
……..A tília, ao lado da porta principal, foi a primeira a desafiar-me. Contudo, só entendi mais tarde a natureza do desafio. O arrepio atravessou-me. Justifiquei-o com o frio de janeiro e entrei. Entrei para sempre. Entrei no domínio que Clotilde não me permitiria abandonar.
……..Enquanto as obras me ocuparam, Clotilde não conseguiu ocupar-se de mim. Isso só aconteceu depois. Sentia-a ao de leve nos recantos, nos livros, nos corredores, nas sombras que mexiam sem vento. Foi depois, depois de concluída a fase de reconstrução, que Clotilde se mostrou numa exuberância que não terá tido em vida. A lenda contava como se desvaneceu, agora sei como se espalhou no espaço.
……..Começou por me habitar, entrando devagar. Quase agradecida, habituei-me à sua presença. Clotilde empenhava-se nas minhas histórias, escritas olhando a tília. Disfarçava-se por entre os nomes das personagens. Agora entendo a dificuldade em escolhê-los. Era a distância entre o nome que deveria dar-lhes e o verdadeiro, Clotilde. Depois, sem aviso, insinuou-se nos enredos, levando-me a construir tramas onde o etéreo acompanhava a realidade. Comecei a querer sentir como minha essa escrita. Teria existido sem Clotilde? Escrevia porque ela assim o decidiu? Ou teria talento para lá de Clotilde?
……..As décadas e os livros passaram por mim, deixando-me os cabelos e os olhos brancos. Já não pego nos lápis, escondida pela cegueira. Sei das pessoas à minha volta. Não as sinto, nem elas a mim. Continuo a escrever, agora na mente. Dentro de mim, Clotilde… Num renascer cada vez mais intenso, a cada frase, numa impaciência contrária à vida. Uma impaciência que me impele a desaparecer permanecendo, que me leva de novo para junto da tília e me deixa existir só em pensamento. Entendo-a, agora. Seremos a mesma? Não interessa. Morrerei amanhã, ficando apenas à espera de alguém a quem emprestar a nossa escrita.

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