DESCANSA. NÃO ME VAIS PARTIR O CORAÇÃO

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Não é que não tenha medo de sofrer. Tenho. Tremo só de me imaginar a construir, a remendar o meu coração já tão reconstruído e remendado. No imediato, acho sempre que ele não resiste a mais nenhuma porrada. Que deixa de bater se lhe baterem. Mas afinal, descobri que não é bem assim. Percebi que, ao dar-te o meu coração de presente, fiquei com o embrulho. Percebi que, ao dar-te o meu coração de presente, fiquei com o molde. Fiquei com a forma. Fiquei com a essência, que te foi dada mas que não foi renegada por mim. Foi acrescentada, aumentada quando se separou da minha carne, da minha alma, da minha pele e te foi entregue em mãos, mas isso meu bem, não me deixou vazia. Dar-te o meu amor, não me deixou vazia.

Dou-te assim, uma boa notícia. Uma excelente notícia. Acredita, são raras as pessoas que ouvem isto. Tantos são aqueles que são cobrados. Tantos são aqueles que são pressionados a não fazerem asneira. Fazemos isso, constantemente, aos nossos amores. “Não me magoes, não me deixes, não me lixes”. Poucos são aqueles que podem andar por aí, descansadinhos da vida, porque nada lhes foi pedido, quando tudo lhes foi dado. Mas tenho para ti, uma excelente notícia, meu bem. Descansa. Não me vais partir o coração.

Deserdo-te da responsabilidade de destruíres o meu coração. Dei-to sim, é teu, é meu ainda, mas teu também, e dei-to com tudo. Dei-te o meu amor, a minha entrega na totalidade, porque só sei gostar assim, sem prazo de validade, sem hora marcada para devolver, sem defeito de entrega mas com defeito de fabrico, como todos têm e como está escrito, em letras pequeninas, na embalagem. Mas dei-to sem responsabilidade de cuidares dele. A mãe dele, ainda sou eu. Tenho o molde, lembras-te? Sou eu que o mantenho e o aqueço, o construo e desconstruo, o embalo e acordo, o mantenho vivo, enquanto viva estiver. Sou eu que me mantenho viva e assumo, a custódia total, pelo meu coração. Não acho que tenhas de ter o peso da responsabilidade de o manteres curado, nem terei jamais, a responsabilidade de curar o coração dos outros. Só posso curar o meu e esperar que dessa cura saia uma luz mais bonita, uma luz capaz de inspirar a que cuidem dos seus, a que tu cuides do teu. Mais nada. Ninguém tem o dom de nos curar nem de nos destruir. Cabe-nos a nós essa tarefa. Não poderás nunca ter ferramentas necessárias para me construíres, se mo partires, mas também não mo partirás, porque o meu coração é marca registada e está registado em meu nome.

Descansa, meu bem, não me vais partir o coração. Mas permito-te que o enchas e o envolvas e lhe acrescentes mais amor, mais verdade, mais história, mais ensinamentos. Mas ele só deixará de bater, quando os meus olhos se fecharem e quando os meus olhos se fecharem, o melhor de mim fica comigo e o melhor de mim fica com aqueles que cá ficarem. Dou-te tudo porque não perco nada ao dar-te. Descansa meu bem, não me vais partir o coração.