#ELE NÃO: UM GRITO DE REVOLTA, UM MOVIMENTO QUE ESTÁ A FAZER HISTÓRIA

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Há um movimento que está a agitar as redes sociais em todo o mundo. Teve origem no Brasil e está relacionado com as próximas eleições presidenciais de 7 de Outubro, onde serão eleitos governadores estaduais, senadores, deputados federais, estaduais ou distritais e o próximo Presidente do Brasil. Este(a) será o(a) primeiro(a) Presidente(a) democraticamente eleito(a), após o processo de impeachment a Dilma Rousseff, que culminou com a destituição da então Presidente do Brasil, a 31 de Agosto de 2016. Michel Temer, então vice-presidente de Dilma Rouseff, assumiu o cargo de Presidente.

 

Desde 2015, quando os protestos contra o governo começaram, o Brasil mergulhou numa profunda crise política que tem dividido o país, agravando assim a crise socio-económica que já vinha evidenciando. O complexo processo Lava-Jato, que deixou a descoberto uma teia de corrupção gigantesca e que implicou várias organizações, empresas, figuras do partido no poder (o PT) e, inclusive, o antigo Presidente Lula da Silva, é um dado importante para se compreender o rebuliço político do país às portas de viver, provavelmente, as mais importantes eleições da sua história. Contudo, o movimento #elenão surge até mais como um movimento cívico do que propriamente político, já que não promove a eleição de um candidato, mas antes o repúdio pelo discurso machista, misógino, racista e homofóbico de um dos candidatos, de seu nome Jair Messias Bolsonaro. O discurso de ódio é extremamente perigoso, num país que tem um contexto muito próprio e preocupante de violência contra vários grupos.

Brasil, um país perigoso para as Mulheres e membros LGBTI

Para se perceber o porquê de mais de 3 milhões de mulheres (e não só) se terem aliado a um movimento como este, é preciso saber em que contexto vivem e, posteriormente, o porquê de Bolsonaro e os seus apoiantes constituírem uma séria e preocupante ameaça. Segundo um dos estudos que analisei (ver link no final), actualmente a taxa de feminicídios no Brasil é a quinta mais alta do mundo. Certamente haverá quem questione o termo “feminicídio”, mas talvez seja mais fácil de compreender o uso deste termo se percebermos que entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram no Brasil por serem mulheres. De acordo com o Dossier Feminicídio, elaborado pelo Instituto Patrícia Galvão, em 2010 foram registados 5 espancamentos a cada 2 minutos; em 2013 já aconteceria o assassinato de uma mulher a cada 90 minutos; em 2015, o serviço de denúncia 180 recebeu 179 relatos de agressões a mulheres, por dia.

No Brasil muitos são os que ainda questionam a “teoria” da existência de uma Cultura do Estupro, mas se pensarmos que, em 2015, se registou um estupro a cada 11 minutos, e que se calcula que este número represente somente 10% do total de casos reais (o que leva a crer que, na verdade, mais de meio milhão de mulheres sejam violadas, por ano, no país), como podemos não chegar à conclusão de que esta realidade existe porque há conivência da sociedade em relação a comportamentos impróprios, agressivos e machistas cometidos contra mulheres, crianças e jovens? A “teoria” da Cultura de Estupro transforma-se numa triste constatação quando percebemos que 70% das vítimas são crianças e adolescentes e que os agressores, na sua maioria, são homens próximos da vítima. Como negar a conivência de toda uma sociedade e do sistema judicial, se as estatísticas nos dizem que, só no Estado de São Paulo, somente 15,7% dos acusados por estupro foram presos?

Os números avançam e as estatísticas demonstram que a violência contra as mulheres tem vindo a aumentar no Brasil. São números tristes, avassaladores. Aliás, basta abrirmos uma página de notícias de um qualquer portal brasileiro, todos os dias, para vermos novos nomes, mais uma vítima, mais uma mulher que morreu porque vive numa sociedade que, além de não a proteger, a relega a um papel secundário, um papel quase sempre determinado por homens.

As estatísticas, no que diz respeito a igualdade salarial, comprovam isso mesmo. Segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a 7 de Março deste ano, no âmbito do Estudo de Estatísticas de Género, as mulheres brasileiras trabalham mais e ganham menos (ganham o equivalente a 76,5% dos rendimentos dos homens), e isto num contexto onde elas têm um nível de escolaridade superior ao deles.

 

O Brasil é um dos países do mundo que mais mata mulheres e membros da comunidade LGBTI. Posto isto, é necessário conhecer o candidato Jair Bolsonaro, perceber o que ele defende e como a sua possível eleição poderá agravar de forma dramática a situação das mulheres, da comunidade LGBTI e também das classes mais pobres, do povo indígena, das minorias e de todo o povo brasileiro.

Jair Messias Bolsonaro, a personificação de todos os preconceitos

Mas afinal quem é Jair Bolsonaro?

Candidato pela coligação “Brasil acima de Tudo, Deus acima de Todos”, uma coligação criada entre o PSL (Partido Social Liberal), de centro-direita, e o PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro), de extrema-direita. Bolsonaro está na política desde 1989. Foi vereador do Rio Janeiro, de 1989 a 1991. Capitão reformado do Exército, é Deputado Federal desde 1991, ou seja, há 27 anos. Nesses anos como Deputado Federal, dos mais de 170 projectos que elaborou, somente 2 se tornaram lei. Isto demonstra o pouco que contribuiu para o panorama político brasileiro até agora. Bolsonaro é conhecido pelo seu discurso abertamente violento e preconceituoso. Assume-se a favor da tortura e de uma guerra civil, pois, segundo ele, nada mudará no país através do voto, sendo a solução o uso da força, nem que para isso morram inocentes.

 

Entre 1964 e 1985, a ditadura militar usava a tortura e as detenções arbitrárias para reprimir qualquer forma de oposição ao governo, qualquer vestígio de comunismo. As liberdades civis foram reprimidas e, até hoje, não se sabe quantas pessoas ao certo foram torturadas e/ou assassinadas pelo regime. Para Bolsonaro, o erro do regime militar foi não ter eliminado mais pessoas. De entre os torturadores do regime que foram condenados em primeira instância pela justiça, encontra-se o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que torturou Dilma Rousseff. Aquando da primeira fase da votação do Impeachment de Dilma, Bolsonaro votou sim, em homenagem ao Coronel Ustra, “o pavor de Dilma Rouseff”, proclamando-o em pleno Senado.

 

Jair Bolsonaro também é conhecido por ser extremamente homofóbico. Já defendeu a violência contra os homossexuais, acredita que o “problema” se “resolve” com a educação dos filhos, enquanto crianças, através de castigos físicos. Bolsonaro acha que o “homossexualismo” é uma doença contagiosa, não uma orientação sexual e já afirmou que preferia que um filho seu morresse a ser homossexual, porque se diz incapaz de amar um filho gay.

 

É veemente contra os defensores dos direitos humanos (afirmou, inclusive, que se for eleito o Brasil sai da ONU), e acredita que a solução para a pobreza é esterilizar os mais pobres, sendo esta também a sua solução para reduzir a criminalidade, porque, a seu ver, quem nasce pobre já nasce condenado a ser criminoso. Para ele, “bandido bom é bandido morto” e, como tal, os polícias militares que matarem mais “bandidos” devem ser condecorados.

 

Bolsonaro também é racista. Afirmou que os afro-descendentes não fazem nada, e que já nem para procriar servem. Acredita que não há risco de os seus filhos terem uma relação inter-racial porque foram “bem-educados”.

 

E o que pensa Bolsonaro sobre as mulheres? Deixei propositadamente para último. O discurso que lhes dirige, associado a tudo o resto que defende, foi precisamente o que levou à criação do movimento #elenão, que já ultrapassa fronteiras. No último sábado, dia 29 de Setembro, o mundo assistiu a uma mobilização sem precedentes contra Jair Bolsonaro e a sua ideologia misógina em vários pontos do globo.

 

“Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens… a quinta dei uma fraquejada e veio mulher”. Sim, esta declaração é o espelho de como Bolsonaro vê as mulheres. Quando chamou a deputada Maria do Rosário, do PT, de “vagabunda” e disse “só não te estupro porque você não merece”, Bolsonaro afirmou a total falta de respeito que tem pelas mulheres. Não é, portanto, de admirar que considere que as mulheres não podem nem devem ganhar o mesmo que os homens, até porque… podem engravidar.

 

É fácil concluir que tudo isto é grave, demasiado grave. Tendo em conta as estatísticas que referi, para situar o contexto da realidade em que vivem as mulheres brasileiras, estar contra Bolsonaro não é apenas uma atitude política, é um acto de sobrevivência. Jair Bolsonaro representa o que muitos brasileiros sempre defenderam na sombra, dando voz e força a todos os preconceitos. Ele é a face visível de uma parte da sociedade profundamente machista, homofóbica e racista. Agora imaginem como será viver num país governado por alguém assim!

 

O cansaço de ver o Brasil consecutivamente entregue a corruptos que sufocaram económica e socialmente o povo, tem levado muitas pessoas com acesso limitado à educação (e que, como tal, têm mais dificuldade em formar opinião) a entregar o seu voto a Bolsonaro. Ele apresenta-se como “ficha limpa”, ou seja, como um candidato que não é corrupto, pois é dos poucos que ainda não foi indiciado em crimes de corrupção. É aqui que Bolsonaro ganha muitos apoiantes. Ele usa com mestria o ódio que prolifera contra a esquerda brasileira em benefício próprio, trabalhando simultaneamente uma forte campanha de “desinformação”. Para um déspota como Bolsonaro, qualquer dado que o obrigue a confrontar-se com a sua verdadeira face é rotulado de “fake news”, aliás, todas as notícias que tornaram públicos os seus comentários poucos ortodoxos têm vindo a ser questionadas. Até a própria História passou a “fake news”. Quando a embaixada da Alemanha no Brasil lançou um vídeo sobre o regime nazi, o fascismo e o holocausto, foi inundada de comentários de apoiantes de Bolsonaro afirmando que o regime nazi era de esquerda (porque no nome do partido havia a palavra “Socialista”) e que o Holocausto nunca existiu.

 

Bolsonaro é uma ode à ignorância. Vendo qualquer debate ou entrevista televisiva em que o candidato participe, percebe-se facilmente que sempre que lhe perguntam pelos seus projectos para a saúde, para a educação, ou o questionam sobre a economia do país, ele não ter nada para apresentar. Porém, sabe bem a quem odiar. Diz-se defensor da família tradicional, das pessoas de bem e, por isso, a sua solução para combater a criminalidade passa por liberalizar as armas para esses mesmos “cidadãos de bem”. Recorde-se que, recentemente, Bolsonaro foi vítima de um atentado durante uma ação de campanha e sobreviveu. Se o acesso às armas já tivesse sido liberalizado, será que ele ainda estaria vivo? Toda a forma de violência é condenável, mas Bolsonaro não só não aprendeu a lição, como tem usado o atentado que sofreu como estratégia eleitoral.

 

Quem é a “família tradicional brasileira”? Aquela família cristã, patriarcal, que sabe impor limites à mulher na sociedade, mas que praticamente não impõe limites nenhuns ao homem. Assim sendo, não é difícil perceber o porquê de Bolsonaro ser o candidato de sonho para tantos.

 

 

#Elenão é um movimento que reafirma a importância da mulher na vida política do Brasil. A sua maior representação surgiu através de um grupo no facebook intitulado “Mulheres contra Bolsonaro”, que conta com mais de 3 milhões de membros. O grupo já foi hackeado por apoiantes do candidato várias vezes. Uma das administradoras do grupo foi inclusivamente agredida à porta de casa e outras tiveram os seus dados pessoais expostos na internet como forma de intimidação. Querem silenciar as mulheres, querem que impere o medo e a intolerância, mas tudo isto só deu ainda mais força ao movimento. #EleNunca é um grito de revolta, é um “basta!”. As mulheres representam mais de metade do eleitorado brasileiro e, mesmo assim, ainda são vistas como tendo de ser submissas ao homem, às suas vontades, à sua violência.

 

No entanto, o exemplo do Brasil é apenas um entre muitos. Infelizmente existem vários países onde as mulheres continuam expostas à violência extrema, e é por isso que este movimento é tão importante. As mulheres brasileiras não têm que aceitar, nem aceitam um candidato que reforça a sua realidade desigual e violenta e o eco da sua revolta já se faz sentir em todo o mundo. #Elenão tornou-se viral, e já foi divulgado por várias personalidades brasileiras e internacionais, como Duo Lipa, Black Eyed Peas, Madonna, Ellen Page, Cher, Dan Reynolds (vocalista dos Imagine Dragons), entre tantas outras.

 

Este é o momento! Depois da luta de tantas mulheres para conquistarem os seus direitos, o caminho é em frente, e não permitiremos que este tipo de conduta determine as nossas vidas.

Dizemos “Não” a políticos e políticas que promovam a desigualdade de género, dizemos “Não” a tribunais que condenam moralmente as mulheres por serem adúlteras ou por estarem alcoolizadas, sendo condescendentes com os criminosos que as agridem e violam. Dizemos “Não” à homofobia, “Não” ao preconceito, “Não” ao racismo, “Não” ao machismo!

 

E será que, com tudo isto, ainda há quem pergunte o que é o Feminismo e que ponha em causa a importância da nossa luta?

Links: 

http://artigo19.org/blog/2018/03/07/artigo-19-lanca-pesquisa-sobre-dados-abertos-e-casos-de-feminicidio/

https://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/as-10-frases-mais-polemicas-de-jair-bolsonaro.html

https://catracalivre.com.br/cidadania/elenao-mulheres-saem-as-ruas-em-todo-pais-contra-jair-bolsonaro/

 

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