ELOGIO AO LIVRO

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Os livros são seres simpáticos. E isto é dizer pouco, muito pouco. Não me refiro à pequenez do adjetivo simpático para classificar algo de tão valioso. Refiro-me ao suposto abuso de chamar a um livro um ser. Será mesmo um abuso ou não passa da constatação de uma realidade? Não sei se já repararam no cliché amiúde referido nos filmes e séries americanas onde o padrinho de um casamento, aquando do seu discurso, inicia com a definição apresentada pelo dicionário para a palavra Amor. Não vou aqui fazer nenhum discurso e gostaria de deixar de lado os clichés (o que não prometo ser capaz de fazer), mas segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea um “ser” é tudo o que existe e é animado. Ora um livro, ainda que seja aquele que nos dá a definição de “ser” (já viram que prestáveis eles são, até para falar sobre eles mesmos se apresentam como recursos valiosos), não parece assentar na definição de ser, mas, e avaliando friamente, como poderia não receber tal qualificação? Estão presentes sempre e só na medida que o queiramos. Fazem companhia ou dão espaço para a solidão conforme a medida exata das nossas necessidades. Falam connosco e não esperam nem cobram palavras de volta. Transportam-nos para outros sítios, outras almas ou outros mundos sem cobrarem bilhete e sem se queixarem se desistimos da viagem a meio. Fornecem alimento para o cérebro, como nem os brócolos e as nozes (dois alimentos ultimamente famosos pelas suas propriedades benéficas) conseguem fornecer. Enfeitam uma sala como nenhum abajur, naperon ou qualquer outra peça de bric-à-brac consegue. São portas sempre abertas para a imaginação. A lista dos seus feitos poderia continuar e tornar-se extensa, mas o meu motivo para os apelidar de simpáticos prende-se com algo muito mais prosaico e mundano do que o valor da leitura. Ora vejamos: Já vos aconteceu de estarem a ler, sentados numa qualquer sala de espera e na hora em que chamam o vosso nome – “Senhora Fulana de tal, consultório cinco!” – meio atordoados pela chamada que vos apanhou de surpresa, mais a vontade de apressar o passo e não fazer o bom médico esperar, fechar o livro sem colocar o respetivo marcador de página? E já vos aconteceu de após tanto tempo a segurar o livro na mesma posição, começar a perder a sensibilidade na mão que o segura e, absortos pela leitura, nem ter noção disso até à hora em que o livro vos cai desamparado no chão e se fecha sem o respetivo marcador de página? Estas são só duas das possíveis situações que levam a que inadvertidamente percamos o fio à meada e nos vejamos de imediato mergulhados num susto que precisa de solução – o bom médico que espere, valores mais altos se alevantam. E quando, numa pressa que raia o pânico, recuperamos o livro e o abrimos meio ao calhas, vemos que, afinal, estamos na página certa ou na imediatamente antes, fazendo com que tenhamos a solução para o nosso problema, literalmente, nas nossas mãos. Isto sim eu chamo de simpatia, respeito e veneração pelos leitores. Este nível de deferência nunca pode ser esperada de uma revista. Estas são entidades enganadoras e manipuladoras. Depois de fechadas, abrem-se, quase invariavelmente, nas mesmas páginas, independentemente de onde o leitor tenha acabado a sua visita. E que páginas são essas? Páginas mais grossas, ali colocadas como se colocam ratoeiras para apanhar ratos ou redes para apanhar peixes. E nós caímos. Mais uma vez abrimos a revista na página daquele creme ou daquele perfume, ou daquele vestido, ou daquele batom. E ao fim de três enganos, três quedas nas redes ou nas ratoeiras, já damos por nós a pensar: “bem interessante aquele creme ou aquele perfume, ou aquele vestido, ou aquele batom…”.

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