ENTÃO E NAMORADOS?

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A partir de uma determinada idade, as perguntares dos familiares mais distantes tornam-se algo repetitivas, “então e namorados?”. Mas porquê? Porque raio é que há-de ser essa a primeira pergunta que me fazem? Ter um namorado melhora-me? Torna-me uma interlocutora mais interessante?

Nem todos os jovens escolhem passar a adolescência agarrados aos livros” – premissa verdadeira e de conhecimento público.

“Nem todas as jovens desejam uma relação amorosa e duradoura” – inconcebível! Um escândalo!

Vamos apenas salientar a mudança do género entre estas duas premissas. Rapazes e raparigas têm a oportunidade de escolher o seu percurso académico, não sendo condenados pelas suas escolhas. Os rapazes podem escolher não ter uma relação amorosa porque são jovens e, passo a expressão, o importante é comer as gajas todas que aparecem na noite. Mas aí de alguma rapariga que ouse beijar um rapaz numa discoteca que não seja o namorado! Já capa de jornal e saltamos para os noticiários nacionais para debatermos e punirmos esta rapariga que não se dá ao respeito e, mais, queixa-se de ser assediada! É preciso não ter vergonha nenhuma na cara! Veste uns trapinhos e quer ser respeitada.

Nojo! É o que sinto sempre que me deparo com estas situações, porque razão não há de a rapariga vestir aquilo com que se sente confortável? Mas voltando ao tema dos namoros – porque é que é uma adolescente que não namora é estranha? Sim, estranha. Aos olhos de todos. Uma alegria para uns e uma preocupação para outros, já que estes nos veem como se fossemos um iogurte numa prateleira de supermercado, prestes a passar a data de validade, e sem ninguém a mostrar interesse em levar-nos para casa.

Não faz mal sermos jovens e não namorarmos, sejamos rapazes ou raparigas. Não faz mal termos outras prioridades diferentes de alguns dos nossos amigos. Não faz mal. Não faz mal, porque somos felizes.

A meu ver, namorar é um investimento, um investimento que não quero fazer agora, mas nem por sombras isso me torna uma pessoa estranha ou alterada ou com problemas. Não me torna absolutamente nada, deixa-me apenas ser eu própria. Não sou melhor ou pior pessoa por não ter namorado. Não sou mais ou menos problemática por não ter namorado. Sou apenas eu, porque eu tenho liberdade para escolher quem sou, quem quero ser e o que quero fazer. São as minhas escolhas.

Mesmo que inocentemente, estas perguntas são feitas. A minha vida amorosa é um dos fatores analisados na avaliação da minha pessoa, esta pergunta é uma sexualização do meu ser. Sexualizam-me até dizer chega, a mim e a mais umas quantas desgraçadas que por qualquer motivo não namorem. Que raio, chega!