ESTÁ DESPEDIDA!

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Na agência onde trabalhava, há muito que os colegas a olhavam de lado.

Sara cumpria o mesmo ritual todas as manhãs, sem falhas, como um relógio suíço. Estacionava o carro no parque, passava pela cafetaria para apanhar um chá e seguia em silêncio para o seu gabinete onde se fechava sozinha até à hora do almoço. A porta só voltava a abrir-se às 13h quando saía para comer qualquer coisa no restaurante da frente ou na cozinha da agência, esquecida a um canto como um trapo velho. Tinha apenas 45 anos. No período da tarde a história repetia-se, mantendo a invisibilidade de um fantasma. Raramente participava numa conversa ou num momento de convívio com os colegas, evitando a todo o custo cruzar-se com quem quer que fosse, como se tivesse vergonha da sua própria existência. Era sempre parca em palavras, mesmo durante as reuniões ou quando alguém a abordava para esclarecer uma dúvida. Os mais novos achavam-na seca e arrogante, os mais velhos falavam dela como se fala de uma velha glória que já teve os seus tempos áureos mas que se deixou cair em decadência. Era difícil acreditar que algum dia tivesse sido importante naquele… ou noutro lugar.

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