FRAGMENTOS: A CAMINHO

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……..Já nem foi capaz de cumprimentar o motorista do 32, de tão irritada que ficara. Nunca, em doze anos de espera por aquele autocarro, que partia sempre atrasado, se vira perante tanta indiferença dos seus companheiros do Bairro de Caselas. Procurou um lugar no banco dos palermas, para ter a certeza de não precisar de partilhar o assento com um dos vizinhos. Ninguém gostava de ir ali. Cruzou os braços, aumentando a fúria contra eles. A viagem, iniciou-se com a mesma lentidão de sempre. Chegariam ao Marquês de Pombal quarenta e dois minutos depois, massacrados pelos abanões do autocarro verde.
……..Só então se viu refletida no vidro à sua frente, onde nenhum outro palerma se sentara para lhe tapar a vista. Endireitou-se, incomodada, ajeitou o lenço que lhe enfeitava o pescoço, mas apenas para confirmar a evidência: era ela, sim, mas a cara que lhe coroava os ombros era a da sua chefe de secção, aquela pirosa que lhe infernizava a vida.
……..O 32 continuava, chocalhando a carcaça velha consoante os buracos das ruas. O suor que lhe invadia agora as têmporas ameaçava despenhar-se no lenço, e pôde imaginar-se a chegar ao emprego com o ar nojento de Rosália. Se fosse um sonho… Não era.
……..Começou então um exercício mental. Encontraria certamente uma razão para tal acontecimento. Concentrando-se em Rosália, tentou enumerar que mais a irritava naquela mulher. A urgência nos pedidos, sem dúvida. Os suores, sempre peganhentos naquela face sem graça. O tom autoritário, um pouco ansioso, como se tivesse medo, pensou. Então, pareceu-lhe mais um pedido de ajuda do que uma exigência. Subindo na hierarquia, entendeu como o verdadeiro autoritário era o indivíduo acima de ambas, que obrigava Rosália a quase desfalecer para cumprir as ordens absurdas que lhe atirava.
……..Imaginou Rosália a caminho do escritório, a bordo do 46 de Marvila, antecipando o sofrimento de todo um dia. As gotas de suor pareceram-lhe justificadas e chegou a ter pena dela, a braços com blusas tingidas de poluição e aflição, sem habilidade para apagar dos colarinhos e da memória as investidas do chefe.
……..Pensou, então, no que estaria ao seu alcance para mudar o curso dos dias. Centrara-se tanto na sua irritação por Rosália que não vira a verdade. Juntas, talvez pudessem cumprir as ordens (as reais, claro, as reais) sem ansiedade, enquanto colecionavam queixas de forma sistematizada. Ainda havia gente acima daquele pulha…
……..― Ó dona Feliciana, como está? E eu a julgar que tinha perdido a carreira.
……..Respondeu com um sorriso surpreendido. Era o seu vizinho do Bloco B, com quem sempre partilhava o primeiro lugar a seguir à porta. Ambos solteiros por vocação, tinham sempre conversas animadas e descomplicadas. Com algum esforço, tentou ver-se no vidro por detrás dos palermas que lhe imitavam o lugar do outro lado da multidão acumulada numa pressa de saída. Reconheceu-se com uma alegria corajosa ― aí estava!
……..Correu até à Troca Tintas, pastelaria manhosa onde Rosália sempre engolia o sustento para mais um dia de nervos. Sentou-se em frente dela. Sorriu-lhe.
……..― Rosália, vamos dar cabo do homem.
……..― Nós duas? O que há para fazer? Isto é um mundo de homens.
……..― Pois, vai deixar de o ser. Somos boas trabalhadoras, não somos?
……..― Sim… mas nunca chega, nunca está bem, diz que não prestamos.
……..― Chegamos agora nós para ele! Tenho um plano…
……..Quando entraram, dois minutos antes da hora, no escritório, foram recebidas por um esgar trocista. Não reagiram. A guerra começara dez minutos antes.

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