FRAGMENTOS: A LISTA DE BELMIRO

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………..Belmiro dobrou a lista, a sua lista de coisas a fazer em 2017. Fora pensada com um cuidado extremo, quase cansativo. Ouvia lá dentro a voz do pai, derrubando as paredes com o eco:
………..– Aquele indolente já se levantou? Ou vai passar a meia-noite na mesma posição em que passa o dia?
………..Era assim que Inácio Postiga falava do filho, quando não estava com ele. Quando se encontravam, ia mais longe, atirando-lhe à cara o dinheiro gasto em eletricidade, pois o filho não largava o computador, a televisão e o aquecimento. No Verão, o aquecimento era substituído por uma ventoinha.
………..Inácio Postiga maldizia o dia em que o recebera de volta, depois de uma fuga em forma esboçada. A tentativa afastara-o de casa durante duas horas, cinquenta e dois minutos e alguns segundos. Poucos. Tivesse Inácio percebido a tempo que fora uma fuga, e a readmissão na casa paterna não chegaria a acontecer.
………..Belmiro inspirou fundo, concentrando-se nas suas promessas para o ano que começaria dali a pouco. Sentiu, levando a mão ao bolso, como as tinha perto. Susteve a respiração. Jurou segurar no papel enquanto deglutisse as deslavadas passas de uva. Ao expirar, saiu do quarto e dirigiu-se à sala.
………..Evitou cruzar o olhar com o pai, recebendo da mãe festas no cabelo, como se tivesse dez anos. Ou mesmo quinze, idade em que, com forte convicção, abandonara os estudos para se dedicar à sua paixão – fazer da mãe sua criada, sem que ela notasse. Isso acontecera havia dezassete anos.
………..Tudo parecia correr de feição naquela noite, não fosse a presença incómoda dos irmãos mais velhos, de semblante cansado e mãos calejadas, e das cunhadas, cada uma mais disforme do que a outra, evidenciando os cinquentas alojados nas ancas para sempre.
………..Na televisão, o comediante brincava com personalidades de que nunca ouvira falar. Disfarçou esse facto, evitando risos dos irmãos.
………..Chegara o momento!
………..As badaladas soavam pela sala, a mãe tremelicava de contentamento, de excitação. Era o momento alto do ano. De certa forma, era mesmo. A mãe nunca ficava acordada para lá das onze.
………..Uma dúvida alojou-se então no cérebro de Belmiro. Como poderia completar o 9º ano, se nunca terminara o 6º? A coisa estava já a correr mal. E, procurando emprego para um part-time, quem faria companhia à mãe na sua ausência? Não podia ser! Por último: se aprendesse a dobrar meias, por exemplo, que faria a mãe com as horas que lhe sobejavam.
………..Estava a ser egoísta. Não podia fazer tal coisa a uma mulher que dedicara a sua vida a fazer dele um brinquedo de estimação. Fora apenas uma ideia tola de fim de ano. Não, Belmiro iria iniciar 2017 mantendo-se fiel a si mesmo!
………..Quando a última badalada soou, deitou simbolicamente o papel para a lareira, mesmo a tempo de fugir à promessa. Quando a mãe o abraçou e lhe desejou bom ano, ele chegou-a ainda mais a si, sussurrando-lhe:
………..– Vai tudo correr bem, acredita, mãe, tudo…
………..E Etelvina comoveu-se, ficando com a sua mão presa na de Belmiro, e sonhou. Iria finalmente ver o seu menino crescer!

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