FRAGMENTOS: AGORA… DE VEZ

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……… ― Ainda és um miúdo, David. Desculpa, mas é verdade… ― acrescentou o prior, ao ver o rosto do miúdo transformar-se num esgar. Tinha-o preso pelo braço pesado e sólido, como um ramo de carvalho encaixado nos ombros imberbes. ― Se te perguntasse, qual era para ti a maior virtude, hã?
……… David sorriu, mostrando os dentes amarelados pela falta de higiene.
……… ― O que é isso?
……… ― Virtude? Não sabes o que é? Vês?! Ainda és um miúdo…
……… ― Já disse que não! Explique-me, que eu respondo.
……… O prior suspirou. Já se arrependera da pergunta, mas agora David queria ir até ao fim. Insistia, queria responder.
……… ― Uma virtude não se explica ― ouviram dizer atrás deles.
David, ao reconhecer o cangalheiro, largou a correr, desaparecendo na esquina da igreja.
……… ― O senhor prior já devia saber que o David é pouco dado a essas coisas. Ele nem sabe o nome da terra onde nasceu…
……… ― Tens razão ― concordou o prior, sentando-se no banco de pedra e incitando o cangalheiro a imitá-lo. ― Que queres? Aborreço-me. ― Depois, mudando de tom, encarou o seu parceiro de conversa. ― Uma virtude não se explica, hein?… Bem respondido. Mas assustaste o rapaz, coitado.
……… O cangalheiro sorriu, com bonomia.
……… ― Eu não assustei ninguém! O senhor prior não devia ter aparecido assim ao rapaz. Pois se a capela está cheia… O David ficou baralhado. ― Depois de uma pausa, perguntou: …… …― Sabe ao que venho?
……… ― Se acreditar no que dizem por aí, sei. Senão, estou às cegas. Mas o miúdo disse que já tinha acontecido, deve ser verdade.
……… ― Já escolheu o sítio?
……… ― Posso escolher? ― O prior estava espantado. ― Isso é bom. ― Olhando à volta, apontou: ― Ali ao lado do carvalho, achas bem?
……… ― Não tenho de achar nada. Se é aí que quer ficar, fica. Mais alguma coisa?
……… ― Acho que não…
O cangalheiro levantou-se. Agarrou na pá e olhou para os sinos, que começaram de imediato a repicar. David apareceu a correr.
……… ― O que foi?
……… ― Morreu, agora de vez ― disse o cangalheiro. ― Ajudas-me?
Quando olhou, já David desaparecera de novo. A multidão foi-se juntando. Nos braços dos fiéis, vinha o caixão, velado durante a noite. O buraco aberto, junto ao carvalho, esperava-o. Só David não compareceu, mas ninguém reparou. Afinal, ainda era um miúdo.

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