FRAGMENTOS: AS DUNAS

391

Acordou com o sol a gretar-lhe a pele. Antes de abrir os olhos, soube que chegara a terra. Já não era embalado pelo mar. Ouvia-lhe o murmurar esquivo, talvez atrás de si. Enroscou-se sobre si mesmo, querendo ganhar forças para o passo seguinte.

Abriu então os olhos, ferido de imediato pela simplicidade da areia. A custo, sentou-se. Para trás o navio da fuga, o alto-mar robusto e revolto. Para trás, a escolha entre as ondas ou os tiros. Para trás o passado sem futuro das ilhas pobres.

Era cedo. A brisa leve ainda não aquecera o verão que, autoritário, ditava o sentir dos dias. Precisava de caminhar, fugir para as dunas. Devia abrigar-se, evitando o regresso às origens que negara.

Tentou elevar-se, sem sucesso. Experimentou de novo, já sem esperar sucesso. Por fim, o sucesso apareceu do meio da vegetação rasteira. Vinha carregado da mesma cor de pele. Nos olhos, a mesma raça.

Só então, sem aviso, se deixou desmaiar.

Voltou à praia e às recordações. Relembrou os olhos da mesma cor e da mesma raça que, duas décadas antes, o haviam resgatado. Recebera uma vida simples de trabalho, amor e conversas. Aceitara a ausência de projectos futuros, esgotados nas origens. Reinventara-se no dia em que acordara na areia, com a pele gretada por um sol teimoso, exigindo que se apressasse.

Ela aparecera nesse dia, salvando-lhe o futuro. Desaparecera agora, levada por uma vida de dias somados, uma vida longa partilhada consigo, com carinho. Uma vida simples de trabalho, amor e conversas.

Virou as costas ao mar. Observou as dunas na esperança de a ver de novo, mesmo que em sonho. Não viu. Sentiu-a, na brisa leve que adivinhava um inverno de sentimentos. Enroscou-se sobre si mesmo, querendo ganhar forças para o passo seguinte. Enroscou-se sobre si mesmo, conseguindo lembrar-se de tudo antes do momento seguinte. Desta vez, com sucesso.