FRAGMENTOS: DOIS MESES

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Expressão de parvo. Não, é uma expressão de medo. Talvez embaraço. Não deve ser simples. Já percebi tudo e ele finge que não me percebe. A miúda vai ficar sozinha. Os contadores todos em meu nome, vai dar tanto trabalho. Ele esfrega as mãos na bata. VS muito alta. Sublinhado, até. Mas há mais coisas sublinhadas. A minha vida, já sei. Tapa aquilo com a mão, como se eu não tivesse visto. Será que o Jorge fica com a miúda? Até parece que fiz de propósito, não é? E fiz. Não sei se é possível, mas devo ter feito de propósito. A renda é tão pesada. Já está a falar outra vez nas análises. Nunca fiz um seguro de jeito. Agora é tarde. Queimar as cartas todas. Não lhe dou esse prazer, não. Não as vai ler com a outra ao lado. Estou tão cansada. A filha é dos dois. Mais minha. Análises fidedignas, claro que são valores corretos. Eu já sei há tanto tempo. A gente sente estas coisas. Até se engasga, coitado. Eu já percebi, não precisa de se esforçar tanto. Também percebi quando ele se pisgou. Se calhar, já se sentia o cheiro da morte. A miúda é que sofreu. Mas eu não via alternativa. Era um pulha, tinha de sair. Tantas coisas para sair. O lixo que há atrás do móvel grande, não me posso esquecer desse. E a roupa já muito gasta. Quem é que me vai vestir? A outra? Dois meses, diz ele. Até pensei que fosse menos. Não vou chorar. Só choro daqui a dois meses e um dia, ao pé da minha mãe. Um seguro é que dava jeito. Sempre fica com a pensão. A miúda é que me custa. Fruto do amor, que parva sou. A outra vai ficar com o meu lugar. Sempre o quis, aliás. O cemitério é que chateia. Cremada. É isso, cremada. A miúda se calhar impressiona-se. O Jorge vai aparecer. Vai fingir-se abatido. Sempre tem de acompanhar a filha. Dezassete anos não é nada. Ou já é tudo. A bata mostra manchas de suor. Não se esforce, já percebi. Dois meses é imenso. Só não dá para explicar à miúda o resto da vida. A que eu já não tenho. E este cansaço. Fiz de propósito, pois fiz. Ele vai dizer que eu até isto fiz de propósito. A torneira da máquina tem de se arranjar. Só eu é que a consigo abrir. O Pedro, uma pena. Paciência. Também já estou cansada de me fingir apaixonada. Coitado, não tem culpa. Outra vez as análises. Até parece ser ele a morrer. Escuso de abater no empréstimo, fica tudo despachado. Soutiens novos. Não posso ir com estes. Cremada dava jeito. Ardia tudo, até o cheiro da morte. O seguro também dava jeito. Cemitério é horrível. Silêncio de morte. O Jorge levou os CDs só para me irritar. Deixou o silêncio. A miúda ficou com pena. Também, já foi há tanto tempo. As análises outra vez. Vou sair daqui. Ainda morre ele de esforço. Uma camisa de dormir nova dava jeito. Morrer de noite também. O seguro é que dava. O homem está desfeito. O Jorge também podia ficar desfeito. Mas não fica. Fica o Pedro. Talvez. Dois meses é muito tempo. É pouco. O pior é a miúda…

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