FRAGMENTOS: ESCAVADA NA ROCHA

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Nota: Conto escrito para a Fundação Madre Sacramento – LAR JORBALÁN, por ocasião da comemoração dos 10 anos de compromisso solidário com jovens mulheres em situação de vulnerabilidade social.

 

……..Naquele canto da aldeia, onde raramente passava quem não pertencesse ao refúgio escavado a custo na rocha, ouviam-se os trovões e o vento. A chuva inundara o chão pouco estável e os corações das pessoas que, juntas à volta de uma fogueira, esperavam o regresso de alguma paz. Naquele instante, queriam a paz da natureza; noutros instantes, pediam a paz dos comportamentos.
……..Foi num estremeço de susto que ouviram aquele bater urgente na porta de madeira. Entreolharam-se. Mulheres, crianças e cuidadoras, num código desenvolvido pela necessidade, aceitaram abri-la.
……..O vulto que entrou, de roupas estragadas pelo tempo, cabelos tornados grisalhos pelos caminhos percorridos e barbas confirmando que era um homem desesperado, agradeceu numa voz quase doce. Um espaço para si abriu-se junto às chamas. Sentou-se, agradecendo. Um caldo aquecido de imediato apaziguou-lhe a fome. Um silêncio pasmado invadiu aquele refúgio na rocha.
……..Só nesse momento o homem levantou os olhos, percorrendo um a um aqueles rostos que tentavam adivinhá-lo. Nada disse por muitos minutos, tantos que pareceram séculos. Por fim, sorriu.
……..A mulher mais velha, assumindo o comando que sempre tivera naquele grupo, perguntou-lhe como se chamava.
……..– Podem dar-me o nome que preferirem. Isso não é importante, nada importante. O importante era encontrar-me convosco.
……..Um esboço de gargalhada, morto à nascença por uma tristeza desconfiada, deu origem a um comentário:
……..– Ninguém se interessa por nós.
……..O velho esboçou uma surpresa:
……..– Não? Creio que estás enganada.
……..– Não estou. Viemos para aqui por uma razão, somos umas pobres-diabo. Ninguém se interessa por nós. Fugimos da guerra, da violência, do abuso do corpo e da mente, fugimos até de nós próprias.
……..– Repito: estás enganada. E vou provar-te o que te digo.
……..Ajeitando-se melhor no espaço pequeno perto da fogueira, começou:
……..– Tu, que achas que ninguém se interessa por ti, esqueces que todas aqui, todas, sem exceção, têm por ti uma enorme afeição e admiração.
……..– Que disparate! – reagiu a mulher.
……..– É verdade. Fugiste de uma situação onde a tua vida física, mental e espiritual, estava em risco. És uma lutadora. Mais! Queres sair daqui para continuar a viver, mas desta vez com dignidade. Diz-me, não tenho razão?
……..– Bom, visto nesses termos, acho que sim…
……..– Tu – continuou o velho, pousando o olhar numa rapariga jovem, com um filho pequeno nos braços –, tu perdeste o apoio da tua família, mas encontraste nesta rocha o apoio de quem te entende. Quando daqui saíres, saberás que a tua família é esta e que, tal como agora, não te irá abandonar.
……..A jovem abraçou o filho ainda mais, comovida com a verdade contida nas palavras do velho.
……..– Tu estás desiludida com o mundo dos homens. – A mulher a quem o velho dirigiu a atenção abandonou o corpo numa postura de cansaço, e ele continuou: – Foste maltratada, violada, partida em muito mais pontos do que os teus ossos. Quando daqui saíres, a tua esperança nas pessoas irá mais robusta, e saberás que podes encontrar para lá destas portas o que aqui te dão. Terás recuperado a confiança nos outros.
……..E esta mulher endireitou o tronco, endireitando no mesmo instante uma esperança diferente.
……..O velho olhou, então, para uma mulher mais velha, mais esmagada pela guerra do que pela vida.
……..– Tu sabes o que não queres encontrar: a guerra. Contudo, aqui, descobriste que é possível mudar o mundo em pequenos passos, em pequenos gestos. Trocarás a guerra pela paz e pela entreajuda, todos os dias, em cada minuto. Estou enganado?
……..Um sorriso envergonhado deu a resposta: não, não estava enganado.
……..– E tu, jovem sem infância – disse o velho, passando o braço por cima do ombro da adulta por força das circunstâncias, sentada ao seu lado –, encontraste aqui o que as famílias que fingiram receber-te nunca te deram: a sensação de pertencer a um lugar, este, e saberás, ao longo da tua vida, que as pessoas a quem chamares família vão precisar tanto de ti como tu delas. Compreendes melhor do que ninguém o que significa acolher. O mundo só poderá beneficiar com isso.
……..Algumas lágrimas dispersas iam pontuando as palavras do velho. Uma a uma, todas as mulheres se viram refletidas nas frases deste homem que parecia conhecê-las desde sempre. Chegando à madre-curadora, o velho sorriu. Era a responsável por toda aquela obra erigida pela vontade de mudar a tristeza daquelas mulheres. Fizera mais do que escavar a rocha: escavara através das emoções e das rejeições do mundo.
……..– A ti, só tenho de te agradecer. Por tudo o que aqui, com as tuas cuidadoras-ajudantes, constróis, dia após dia, recuperando pessoas, esperanças, afetos e convicções. É um trabalho nunca acabado, mas a tua perseverança também nunca irá acabar. Bem-haja toda esta tua generosidade e confiança no mundo dos outros.
……..Sem esconder a emoção, e sentindo-se rodeada de carinho, a madre-curadora, falou:
……..– Não sei quem és, mas quero que recebas toda a minha gratidão.
……..– Tu sabes quem eu sou – disse o velho, pondo-se de pé.
……..Com a calma que julgou necessária, foi retirando as roupas andrajosas, os cabelos inventados, a barba colada, deixando mostrar um corpo de mulher madura, vestida com as roupas que dali levara havia tantos anos.
……..– Voltei, madre. Voltei porque sei que precisas de ajuda. Voltei para provar a todas estas mulheres que a esperança que sentem crescer é verdadeira e possível, para que não desistam de si mesmas. Voltei para te agradecer e ajudar a criar para outras o que a mim deste.
……..Esta história não tem fim, nem poderia ter. Tem, isso sim, um caminho dentro: o que cada mulher escolher seguir.

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