FRAGMENTOS: FECHA-ME AQUI

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 Deixaste-me aqui fechada. A casa deserta, o coração vazio, a esperança arrombada. Deixaste-me fechada. Que adianta ter quartos e comodidades? Jardins que apenas vejo, onde não posso sequer passear? Deixaste-me. Eu conheço a tua razão. Adivinhaste o que escondi. Não escondi bem, percebo agora. Nada disseste, mas fechaste-me, não a sete chaves, a mil chaves. A mão, magoada de tanto forçar a entrada desta nossa relação, agrava a ferida de me saber sem saída. Encosto a cabeça à madeira onde escavámos promessas carinhosas, a mesma madeira que me dizes ter-te recebido quando chegavas. A porta de madeira por onde tantas vezes saíste ao meu encontro, dizias. Era uma porta de madeira alegre, agora parece triste. Fechaste sobre mim uma porta de madeira triste. Permaneço de joelhos naquilo que deixou de ser entrada ou saída, onde apenas habita uma esperança que se esvaziou no deserto desta casa arrombada.

A noite cai sobre mim, e anoiteço com ela. Não quero a vida, mas ela persiste. Desejo a morte, mas ela esconde de mim o que escondi de ti. Escondi esta loucura, mas descobriste-a. Esta loucura onde habito e que não tem um fim. Adormeço no chão.

Fizeste um enorme esforço para fazer avançar esta porta triste que velou o meu sono. Estremunho-me de surpresa. Voltaste? Se sei quem és? Sim, sei. Não vens só. Explicas-me que essa mulher, de corpo esculpido pela arte de cuidar, cuidará de mim. Sorris, mas não sei se entendo. Dizes que és meu marido. Penso que sei, é verdade. Acredito, reconheço-te o sorriso. As voltas à chave mantêm a clausura, mas já não me pesa. Somos três, agora. Não, somos quatro. Eu, tu, a mulher esculpida que cuida de mim e a sombra do que fomos. Fecha a porta, sim, com a chave. Não posso sair daqui.

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