FRAGMENTOS: FIM DE GARRAFA

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…….Triste sorte a minha. Não fora comprada por gosto, mas sim por necessidade. O hálito gritava a dependência a quem pudesse entendê-la. À minha volta, escombros. Restos de verdadeiras batalhas, ainda que pequenas. Nódoas de gordura, bocados de pão, pacotes amarrotados, pratos usados e reusados, algumas garrafas como eu, mas vazias, bocados de vidro. Restos também de tentativas de sobrevivência (do corpo ou da alma?), visíveis em pacotes de papa mal abertos e copos com gemada seca. Esperei triste pela minha sorte. Desta vez, não atingiria a reencarnação. Atingiria um final definitivo.
…….A tosse seca enchia-me de preocupação. O andar arrastado, de medo. O olhar embaciado, de pena. Se pudesse falar, se pudesse contar o que já vi, o que sei, o que… enfim.
…….A cara sulcada de olheiras fitou-me sem pressa. Achei que ponderava a minha abertura, tive esperança. Percebi que era a única, com uma bebida tão forte como a clandestinidade do vício. Um sinal? O desalento atrasava-lhe os gestos e a melancolia obrigava-os a perder o sentido.
…….Foi então que decidi lutar por aquela mulher. Estava destinada a morrer (e não estaria ela também?), podia fazê-lo por uma causa. Era fácil agir, dizia-me a dormência com me fitava e o estado de excitação que a esperança me trazia. Desloquei-me aos poucos até ao pacote de papa. Extenuado, com uma dose de nada, pareceu entender-me. Tínhamos uma missão.
…….Chegámo-nos à borda da bancada, unidos pela vontade de mudar o destino, o destino dos três, afinal. As olheiras fitavam-nos, incrédulas. As mãos tentaram alcançar-nos, sem sucesso. Assim que cheguei à borda, atropelando à minha passagem detritos vários, as mãos coçaram os olhos, a boca esboçou um comentário. O efeito foi nulo. Estilhacei-me aos pés da mulher, inundando-lhe a cozinha e a consciência. O pacote lá estava, bem na vertical do sítio onde eu agonizava.
…….As lágrimas da mulher eram do tamanho do esforço que fizera para me trazer. Escondeu a cara nas mãos e assim ficou, sentada no chão ao meu lado. O cheiro da bebida branca, escondida, que um dia carreguei, inundou a casa. As horas passaram. Perdia o raciocínio, piquei-a para que acordasse. Expressão sem viço. Observava-me. Depois, o pacote. Sem correr qualquer risco, o pacote vacilou, como se pudesse seguir-me os passos. Num esforço de náufrago, a mulher pôs-se de pé e agarrou-o. Pegou numa taça e numa colher cansada de ser reutilizada, e esvaziou o pacote. Apareceu uma papa amarela. Comeu-a, sôfrega. Num suspiro que lhe veio do fundo da vontade, começou a deitar para um saco todo o lixo existente. Cada vez com mais força e mais raiva, atirou para debaixo da torneira os pratos e os copos sujos. Alguns desfaleceram. A bancada foi arrasada por um esfregão fora de prazo.
…….De joelhos, a cortina de choro a dificultar-lhe a tarefa, apanhou os meus bocados de vidro, colocou-os num saco pequeno. Deixei de ver. Só quando me senti na rua entendi. O saco descera as escadas de mão dada com a mulher. Dirigiam-se ao vidrão. Um cheiro de cacos fermentados envolveu-me. Fui despejada para dentro de uma hipótese de salvação que julgara perdida, sorrindo com todas as arestas que me restavam. Ela despejou-me, dando início a uma hipótese de salvação, sorrindo por frestas que julgara perdidas.

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