FRAGMENTOS: GABI

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― Precisa de mais alguma coisa, minha senhora?
― Se precisasse tinha pedido, Hermínia, deixe-me sossegada.
Hermínia saiu sem dizer mais nada, cruzando-se na porta com Luís, que se levantara, mais uma vez, para lá da hora do almoço.
― Então, mãe, como está?
― Como se isso te interessasse. Faltaste de novo ao almoço.
― A mãe sabe que é assim que contacto os produtores japoneses, os meus principais clientes.
Um encolher de ombros pôs fim à conversa. Aquele assunto aborrecia Alda. Quando Hermínia trouxe um tabuleiro com o almoço para o filho, a mãe ausentou-se sem remorso.
― O menino conseguiu aquilo de ontem?
― Consegui, Hermínia, fechei o negócio. Isto vai permitir-me ter dinheiro para cinco anos!
― Mas não me vai deixar aqui sozinha com a sua mãe, pois não?
Um beijo na cara daquela mulher forneceu-lhe uma resposta. Luís nunca saíra dali, a não ser para estudar. Aquela era a sua casa, e Hermínia a sua mãe adotiva por escolha.
Um afazer de Hermínia cortou a conversa. Luís recordava os trabalhos em que se metera por namoriscar a filha da criada, vinte anos atrás. Um casamento com uma plebeia seria uma afronta para Alda. A rapariga fugira da terra e do país, emigrando para França. Ao levar o tabuleiro à cozinha, encontrou Hermínia a enxugar lágrimas e ansiedade.
― O choro é porquê, Hermínia?
― Medo, acho eu.
― Já lhe disseste?
― Credo, menino, não disse, nem vou dizer.
― Como fazemos, então? Achas que não vai descobrir?
― Ninguém vai perceber, menino Luís. Agora até mudou o nome, já não é Gabi, chamam-lhe Gabrielle, nome fino com dois lês. A sua mãezinha não pode reconhecê-la, nem pelo nome, nem pela cara. Nem imagina a minha menina à frente de uma companhia de vinhos. Como ela embrulha as palavras, nem parece portuguesa.
Luís foi-se arranjar. Vinte anos, uma eternidade. Contudo, pensava: Gabi não voltaria ali sem um motivo adicional. Queria ser esse motivo. Quando desceu, de roupa prática, inventou uma ida aos correios para justificar a ausência das calças velhas e dos sapatos cambados. Admirou a cena do cimo das escadas, enquanto Gabrielle se apresentava e passava pela própria mãe como se não a visse. Grande atriz!
Fez então a sua aparição, fingindo-se surpreendido. Obrigou Alda a explicar-lhe quem era aquela senhora. Cumprimentaram-se com cerimónia. Um teatro perfeito.
Contudo, uma demora quase impercetível, nas mãos que se tocaram, avisou Alda. Entrou no jogo. O negócio era irrecusável, e os seus vinhos precisavam disso.
O filho… depois se veria.

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