FRAGMENTOS: O TEMPO DOS OUTROS

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………..O sol teimava em entrar pela porta, desafiando a altura dos prédios que cercavam a livraria. Antunes sorriu-lhe, condescendente. Não duraria muito, era apenas um entusiasmo de dias curtos. Achava-lhe graça. Deixava aquela luz amarelada de inverno arriscar-se pelo meio dos enredos que ali juntava.
………..Ajeitou os livros da bancada, recordando o início de cada um. O sorriso condescendente voltou. Desta feita, ofereceu-o àqueles objetos. Deu-lhes a certeza de terem, pelo menos, uma atenção – a sua.
………..O som de passos fê-lo levantar os olhos para a vitrina do fundo. Bastava-lhe isso para observar quem chegava. Demorou um breve segundo para entender que aquele era um cliente novo. Deixou-se a confirmar a organização das lombadas, ordem essa que camuflava a ausência de uma história sua.
………..O jovem, distraído, tentava compreender a escolha dos livros, pois ali parecia lógica, intencional. Fingiu atrasar-se nas páginas de alguns, nas sinopses de outros, no logótipo quase desconhecido de quase todos. Esboçou uma pergunta, morta sem conhecer um destino, esbarrando no aspeto compenetrado de Antunes, do outro lado da livraria. Também se deixou algemar pelo cheiro da cola de encadernação, abafando os anseios. Assim esteve, gastando o tempo previsto por Antunes.
………..Por fim, ganhando coragem, o jovem abriu a pasta de couro velho, trazida a tiracolo. Fez nascer assim um volume amarelo. Isso capturou a atenção de Antunes.
………..– Então diga…
………..O jovem balbuciou a vergonha, munindo-se em seguida da determinação necessária para falar.
………..– Publiquei um livro, mas a editora que o aceitou não fez nada por ele… e faliu, está a ver?
………..– Estou a ver a cor da capa. Fale-me da história.
………..Sem avisar, Antunes puxara um pequeno banco e aquietara-se, torcendo as pernas magras como uma trança. Aguardava do jovem o desvendar do resto. Sabia que ensaiara esse resto.
………..– É uma história simples… – tornou a atrapalhar-se o rapaz –, se calhar não é nada de especial.
………..– Engana-se – emendou Antunes. – Se não fosse especial, o senhor não estava aqui. Se não fosse boa, não tinha dito nada. Se não fosse uma história que habitou dentro de si muito tempo, a recusa das grandes editoras não lhe tinha doído tanto, e a falta de interesse dessa que o publicou não o ferira dessa forma. Conseguiu escolher a capa, nada mau.
………..– Como sabe que…?
………..Antunes estendeu a mão para receber o livro. A capa fascinara-o desde o primeiro momento, e a hesitação do rapaz também. Podia adivinhar, mesmo de olhos baixos a folhear o livro, o franzir de sobrolho do rapaz. Podia também sentir o esboço de uma nova questão sem futuro. Sabia que olhava em volta, sem intenção de ver, apenas pedindo alento às lombadas existentes para dizer ao que vinha. Por fim, Antunes encarou-o, aguardou, e a pergunta soltou-se:
………..– Porque acha que fiquei magoado com as recusas das editoras…?
………..Antunes, sorrindo, nem se deu ao trabalho de comentar.
………..– Isto aconteceu consigo? – perguntou, apontando para as páginas impressas.
………..– O que aí está? – A atrapalhação fugiu. No seu lugar, surgiu um sorriso franco. – De certa forma, sim, fui eu que a escrevi.
………..Antunes brilhou de contentamento. Esperava, havia anos, que alguém respondesse assim… Até já pensara em abdicar dessa espera.
………..– Está a ver estes livros? Todos se passaram dentro de cada escritor, embora muitos não o saibam. Você… você sabe. Escrevemos sempre o que somos. Isso é indiscutível, pelo menos para mim. É por isso que nunca escrevi nada…
………..O rapaz ficou confuso, mas depois entendeu.
………..– A sua história escreve-se em cada livro que aceita, ou estou enganado?
………..Antunes apertou-lhe a mão.
………..– Não está enganado. E eu também não. Este seu livro vai ter o seu espaço. Só precisa de deixar que o tempo o leve aos tempos dos outros. E, para isso, estou cá eu…

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