FRAGMENTOS: REMAR ATÉ À VIDA

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Remar sem preocupação era um prazer, até talvez mesmo um vício. Era a sua escolha nos momentos de repouso. Trinta anos passados desde que entrara para a firma como paquete. Ser chefe de secção fizera a vida resultar mais simples, pelo menos era o que gostava de presumir, mas andava esgotado.

Gostava de ouvir os remos mergulharem no mar. O pôr-do-sol atrasara-se já para as oito, os passeios alongavam-se. De passagem para a segunda enseada, imobilizou os braços e os remos. Um barco sem âncora nem passageiros à vista. Apressou-se, enquanto se retesava numa premonição estranha.

Era fácil alcançar a amurada do outro barco, igual ao seu. Gritou a plenos pulmões. Não obteve resposta. Agarrando numa corda e atando o seu ao barco que encontrara, Gonçalo subiu. No convés, um envelope fechado. Não lhe prestou atenção. Ninguém na cabine. O barco fora abandonado.

A premonição desfez-se e a tensão muscular imitou-a, agora desnecessária. Só então leu no envelope o seu nome. Não apenas Gonçalo, mas todo o nome, com os cinco apelidos que nenhuma das famílias quisera perder. Sobressaltou-se. Foi a amurada que o recebeu quando se sentou. De nada lhe valia o corpo trabalhado pelos remos e pela corrida. Quem corria, agora desalmado, era um coração assustado. Pior ainda se sentiu quando, ao olhar para fora, percebeu que o seu barco desaparecera, engolido pelo mar. Foi com as mãos a tremer que agarrou no envelope. Abriu-o e leu a carta.

“Gonçalo, desculpa-me. Foi a única forma que encontrei para te fazer passar por cima da dor de me perderes. Nessa mesma tarde em que te fizeste ao mar e encontraste este barco, saí da vida por uma porta mesquinha, a de uma colisão inimaginável. Não saí da tua vida, isso não. Ficaste à deriva, perdido em mares revoltos de raiva e saudade. Acompanhei-te sempre. Apaguei os dias que se acumularam depois da minha morte. Fiz de propósito. Vais procurar a dor, no agora, mas não a vais encontrar. Este agora é muito tempo depois. O teu coração sarou. Pega nos remos, vai. Volta para casa. Já sabes, espero por ti para lá do pôr-do-sol. Prometo contar-te o que ficou por viver, mas primeiro deverás regressar à vida que ainda tens. Vai.”

Gonçalo observou então as suas mãos. Envelhecidas de repente, acompanhavam a magreza das pernas e a vista turva. Soube, sem saber: haviam decorrido vinte anos. Mas o desgosto estava lá, Margarida enganara-se. As memórias dos dias perfilavam-se, arrumadas no coração, desarrumadas de desgosto. Ainda doía. Sorriu. Margarida sempre fora ingénua.

Pegou então nos remos, rumou à praia. A certa.

Foi recebido por um homem quase igual a si, ao principiar o passeio. Mais novo, sabia-o seu filho. Abraçaram-se e encaminharam-se para casa. Pedro perguntou se sabia o quanto gostava dele. Gonçalo respondeu que sim. Voltou a abraçá-lo e prometeu que voltara de vez.

Talvez Pedro não o entendesse logo, mas iria perceber. Desaparecera dos dois naqueles anos. Nisso, Margarida acertara – o que ficara por viver ainda se podia sarar, e Gonçalo estava ali para isso.