FRAGMENTOS: SERMOS ASSIM

476

Observo-te e penso: saberás realmente quem sou? Não me parece. Dizes piadas sobre as miúdas da faculdade, e eu só me consigo emocionar contigo. Contar-te a verdade significará perder-te? Para trás, tantas noites de interrogações e medos, leituras e sustos, tantos dias a ouvir insultos, como se ser bom aluno quisesse dizer que sou gay, e até sou, sou bom aluno e gay, sempre a ser gozado pela falta de namoradas, odiado pelas notas. Estou tão cansado de viver escondido. Paras e interrogas-me com o olhar. Acabaste de perceber que te escondo qualquer coisa. Vou perder-te. Mas esta dor de te amar sem poder oferecer-te o meu afeto dói mais do que ver-te ir embora. Tento falar, mas as palavras não querem expor-me, agarram-se à minha garganta numa súplica de mais algum tempo clandestino, mais algum tempo na tua companhia. Uma sombra abate-se sobre o teu rosto, o rosto que aprendi a considerar uma parte de mim. Penso que me vais abandonar neste instante. Mas não. A sombra vem de outra razão, a do tempo que perdemos por não sermos capazes de levar a sinceridade até ao fundo do que somos. Abraças-me. Dizes que viveste tão aterrorizado quanto eu, angustiado por não poderes dar-me o que sentes por mim. Eu devolvo o abraço, redobro a força com que nos unimos. Afinal, ser quem sou é ser uma parte de ti. À nossa volta, o reboliço parou. Sei que nos observam. Imagino que nos julgam. Temo que nos apedrejem. Contudo, nada disso acontece. Alguém diz, de sorriso na voz, «até que enfim!». E o reboliço recomeça. Recebemos algumas pancadinhas simples nos ombros, capazes de quebrar o gelo em que vivemos até este dia. Outros brincam, dizendo que somos uns palermas, pois já todos sabiam. Os que nos atacavam mantêm-se distantes, talvez indecisos, talvez a tentar entender. Damos-lhes tempo. Damos as mãos. Somos quem somos, e seremos felizes assim.

Ler artigo completo ...