FRAGMENTOS: SÓ UM QUEQUE

686

Posso sempre pedir um queque, pedir assim com um ar desprendido, como quem até nem queria o queque mas não se lembrou de pedir mais nada, só para não repararem muito no que eu estou a pedir, porque afinal um queque não tem mal nenhum, qualquer pessoa pode pedir um queque e eu não sou exceção, não fosse aquela convencida ali estar sempre a olhar para a minha blusa, sim, porque ela até já pediu uma bola de Berlim com creme e fez um ar enjoado quando a trouxeram, mas só não se engasgou porque não teve tempo, de tão depressa que a comeu, mas um queque é uma coisa que qualquer pessoa pode comer, até eu, não se compara a uma bola de Berlim, ainda para mais comida àquela velocidade, mas a velocidade a que os olhos dela se focam na minha blusa, na nódoa, só poder ser na nódoa, porque uma mulher daquelas não pode estar interessada no estampado, nem no corte, só na nódoa, porque se eu pudesse voltar a casa até tirava a blusa, punha outra, fingia que até me preocupava com o raio da nódoa que está aqui vai para uma semana e ninguém notou, mas o queque é que me estava a apetecer, para comer assim devagar, para saborear, não para comer no engasgo disfarçado como a convencida, a convencida sempre fixada na minha nódoa, ela que está cheia de açúcar nos dedos, nas mãos, na gola, na mente, aposto que tem açúcar na mente, só não tem nódoas na blusa, mas isso para o caso não interessa, porque quem come uma bola de Berlim àquela velocidade, quem olha para a minha nódoa àquela velocidade, só pode ter já açúcar na mente, uma mente peganhenta, uns olhos peganhentos, sempre a vir à procura da nódoa, e o rapaz pergunta-me o que é mais e eu digo que não é mais nada, enquanto tiro o dinheiro cheia de raiva, com o café a amargar-me a raiva contra a convencida, a que se encheu com a bola de Berlim e com a minha nódoa, a que não me deixou comer o queque a mim, a mim, que só venho aqui quando a coragem me arranca de casa, a mim, que tenho outras blusas e não as trouxe, a mim, que a nódoa não fazia diferença até a convencida peganhenta de açúcar se colar nela, a mim, que sou metade dela e com o dobro da vontade de comer um queque, ou uma bola de Berlim, ou outra coisa qualquer, qualquer coisa que me tirasse este amargo da boca, que me adoçasse o coração, que me adoçasse os dias e a raiva, a raiva que quase me engasga, a raiva que dava para pregar uma nódoa na gola da convencida, para degolar a convencida, de olhos na minha nódoa, colados peganhosamente na minha nódoa, a raiva que me faz levantar da mesa a andar com um ar decidido, aquele que só uso para mostrar a todos que estou bem, o andar que nunca uso comigo mesma por não ser preciso, por não ser preciso mostrar a mim mesma que estou bem como estou, porque eu sei que estou bem como estou, ou sou como estou, ou sou e estou bem, ou bem mal, tanto faz, desde que consiga comer o queque em paz, desde que consiga sair de casa com a nódoa em paz, desde que a paz venha de encontro a mim disfarçada de queque, ou de nódoa, ou de andar decidido, mas só me vejo cheia de raiva, cheia de nódoas por dentro, cheia de nódoas no lugar do açúcar que a convencida tem na mente, porque talvez não tenha mais nada para lhe fazer frente, porque todos os dias me sento à frente da convencida, todos os dias anseio ver o queque à minha frente e nunca vejo, porque não sei o que me leva a exibir a nódoa em frente da convencida, talvez por achar que é um ato de coragem, porque ela tem a coragem de quase se engasgar com a bola de Berlim e eu só tenho coragem de exibir esta nódoa, esta ou outra, feitas de propósito, ou propositadamente retidas, ou retida eu mesma no propósito de conseguir, um dia, comer um queque na frente da convencida, na frente da convencida que é o dobro de mim, ou metade de mim, um queque, uma madalena, um éclair, uma bola de Berlim… uma nódoa qualquer.

Ler artigo completo ...