FRAGMENTOS: TENHA JUÍZO!

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…….Contorcer-se, se fosse preciso. Esgueirar-se acima das metas pretendidas, surpreender todos. Ser finalmente aquela que aterra junto aos vencedores, aos líderes, aos que conseguem para além da dificuldade.
…….Era um objetivo ousado, mas isso não a demovia. Joana trabalhava horas sem medida, empenhava-se sem dúvidas, avançava sem desvios. Tudo fez, tudo, menos seduzir o patrão. Iria mostrar a todos (ou seria a todas?) que não era necessário esse detalhe. Sairia vitoriosa sem se rebaixar, vedando-lhe todas as portas.
…….No dia da apresentação de resultados, soube que fizera o melhor trabalho, a melhor comunicação. Encandeara um público habituado apenas a vencedores masculinos. Sentou-se sem olhar para os colegas, esperando, sonhadora, a recompensa merecida.
…….Esperou, mas não a conseguiu, e a voz encheu-se de raiva, enquanto a mente se debatia com a indignação e a revolta. Iria exigir explicações, ameaçaria sair da empresa, não ficaria calada.
…….Entrou pelo escritório do patrão adentro, senhora de si como nunca, de ombros direitos e seguros. Foi recebida por um patrão submisso, quase frágil, que se chegou a si, agarrando-lhe nas mãos. Antes de poder falar, Joana foi puxada para dentro de uma paixão que nunca sentira. Quando o afastou com um esgar de nojo, inundada por um turbilhão de ideias que lhe atropelavam as frases ensaiadas, ouviu o veredicto:
….– Joana, não me leve a mal! Não posso dar-lhe a promoção. Estou apaixonado por si! O que diriam os outros? Estou tão apaixonado, Joana! Que força, que desenvoltura… Que grande mulher! Aceite esta nota de despedimento, esta indemnização, este novo posto na empresa mais forte do país. Passamos a ser rivais, imagine! Está tudo tratado. Mas… aceita tornar-se também minha esposa?
…….Agarrando nos papéis com que ele a aliciava, Joana leu, ponderou e aceitou o despedimento, a indemnização, estranhamente justa, e o lugar. Sabia que merecia o novo cargo, mas o que lhe amargava a consciência era aquela cena. Por fim, arrumou-se por dentro. Decidira sair da empresa se não fosse promovida, ali estava a solução. Da porta, depois de o fintar com repulsa e deixar perplexo, ainda lhe disse:
….– Esposa? Tenha juízo! E prepare-se.
…….O homem caiu na cadeira e na realidade. Para além dos planos estragados, iria enfrentar a única pessoa, sabia-o bem, que poderia abalar a sua empresa.

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