FRAGMENTOS: VESTIDA DE DAMASCO

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Vi-a chegar, vestida de damasco, como no dia em que comentei que estava linda. A cor de acordo com a sua leveza. As minhas dúvidas com o peso dos medos. Benedita sorria para mim. Não de mim. Benedita nunca riu de mim. Chego a imaginar que me entende. Não tenho certezas.
Se desse o primeiro passo? Iria Benedita perder a leveza? Divido-me. Talvez preferisse mantê-la assim, perto de mim, mesmo sem compromissos. Se desse esse passo, o primeiro, arriscaria perdê-la para sempre.
O sorriso de Benedita não se desvaneceu. Isso assustou-me. Teria ouvido os pensamentos que queria esconder? O seu braço encontrara o meu, caminhávamos agora a par. Envolvemo-nos em conversas sem consequência. Sentia-me mais seguro assim. O sol aquecia apenas parte do meu nervosismo. Chegados ao fim do paredão, Benedita obrigou-me a parar. Olhou-me. Observou-me sem limites. Sem receios.
– A resposta é sim, Duarte, já devia saber disso.
– A resposta?
– Sim, a resposta ao que me quer perguntar.
Numa aflição de adolescente, tão fora de época, foquei a atenção no chão. Tentei disfarçar o que era pura alegria. Quis guardar essa alegria, com medo de ter percebido mal.
Benedita agarrou no meu queixo, contrariando-me o embaraço disparatado. Voltou a sorrir.
– Também tenho de ser eu a dar o primeiro beijo…?
Forcei-me numa coragem pouco convicta. Demorei, sei que demorei. Benedita forçou-se a esperar, dando-me uma possibilidade que não soube agarrar. Deu-me mais tempo do que eu merecia.
Entregou-me o beijo em falta. Nunca mais me faltou nada.

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