FRAGMENTOS: HOSPÍCIO

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…..Loucura, padecia de uma loucura disfuncional. Assim me rotularam, talvez para justificar o embaraço produzido nos seus dias arrumados, um embaraço criado, diziam, por mim, e que lhes desarrumava a estabilidade e o sossego. Não podia entendê-los. Fugia das censuras, dos olhares castigadores, refugiava-me no meu quarto, falando com paredes que me entendiam e me aconselhavam, perseguia a tranquilidade daquele espaço para não ter de os enfrentar nos dias que, para mim, eram sempre difíceis de entender.
…..Prenderam-me num abraço de força, atada ao pano, como os pães que sempre tentei salvar, sem conseguir. Levaram-me. O internamento será breve, explicaram, mas eu lia na expressão do olhar o alívio do até sempre.
…..Desfazia-me por dentro, ali, presa entre paredes incapazes de me ouvir, diferentes das minhas, paredes brancas de solidão, salpicadas pelo desespero de outros que, antes de mim, lhes descobriram a surdez com que nos imobilizavam os dias.
…..Mas espiavam-me, na sua brancura sem sentimento. Quase podia jurar que a permuta de ideias feitas sobre nós, hospicializados na flor da vida, era feita entre aquelas paredes e as dos gabinetes. Sim, com os gabinetes onde se decidiam dosagens de alheamento e estratégias capazes de nos manter quietos e sem objetivos.
…..Recuperei alguma alegria ao fazer amizade com um arbusto raquítico, numa esquina da sebe onde me podia esconder dos outros, no fundo de um labirinto verde construído para que nos perdêssemos de vez. Também o arbusto fora podado para se encaixar na ordem dos dias arrumados. Ouvia-me sem censura, devolvia-me a parte de mim que ali queriam afogar, abafar, talvez destruir. Foi a ele que confessei um fim já decidido, para não desviver naquela fábrica de submissos. Contei-lhe o como e o porquê, confessei-lhe a visão do mundo que construíra, em conversas com as minhas paredes, as do meu quarto na casa de quem ali me guardara, um mundo onde cabiam os meus receios, as ânsias acumuladas em quase vinte anos, as fantasias que me alimentavam. Ele acenava uma brisa breve, discreto para não ser podado por amizades loucas. Nas nossas conversas, recebia algum conforto e esperança.
…..No dia em que o cortaram, em que arrancaram da terra as raízes nascidas a custo de encontro ao centro do mundo, soube de tudo. Haviam usado a tortura sobre o arbusto, para saberem como estou, e ele sem culpas. Torturaram-no para depois me torturarem de alheamentos, mansidão, incapacidades de criar objetivos, planos, fantasias.
…..Foi nesse dia que desisti de mim. Passaria a ser branca de solidão, surda ao mundo dos outros, desvivendo, impossibilitada de receber o desespero dos outros em salpicos tristes gritados sem direção, já esquecida do fim que fabricara para fugir.

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