MAIOR E VACINADA

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Hoje bati com a cabeça numa porta. Acho que estou bem. Foi um acidente estúpido e evitável, se tivesse tido mais cuidado. A vida é assim, cheia de acidentes estúpidos e evitáveis. Alguns são fatais. Não nos conseguimos proteger da nossa fragilidade, dos nossos momentos de distração, ou daqueles momentos em que tomamos opções menos refletidas (estúpidas, se quisermos dar os nomes às coisas). Como também não vamos conseguir proteger as nossas crianças de tudo e mais alguma coisa.  Felizmente, há muitas fontes de perigo que conseguimos identificar, prever, prevenir. Podemos colocar barras nas varandas para que as crianças não caiam inadvertidamente. Conseguimos vedar o acesso a piscinas para que as crianças não morram afogadas. Usamos cadeiras especiais e cintos de segurança, para, na eventualidade de um acidente rodoviário, estarmos mais protegidos e evitarmos consequências fatais. Podemos vacinar as nossas crianças para, na eventualidade de contágio, estarmos todos mais protegidos contra doenças potencialmente fatais. Prevenção e vigilância é o melhor que podemos fazer pelas nossas crianças, por nós, por tod@s. E podemos fazê-lo, graças à ciência e ao que a ciência (através do conhecimento e da experiência) nos ajudou a identificar, com as ferramentas que a ciência nos ajudou a descobrir e a utilizar para o bem comum.

Não é verdade que a ciência “ainda não tenha demonstrado” os benefícios da vacinação. Existem infindáveis estudos que o demonstram. Para quem é leiga, como eu, basta olharmos para evolução da taxa de mortalidade infantil (e adulta, olhando para a diminuição das doenças que podem ser evitadas por vacinação, como podem ver aqui) desde 1960 até hoje. Em 1960, a taxa de mortalidade infantil era de 77,5 permilagem (em cada 1000 nascimentos, o que, traduzido em miúdos, queria dizer que morriam cerca de 8 crianças em cada 100 nascimentos, e cerca de 1 criança em cada 10). Era uma espécie de lotaria de sobrevivência. Em 1965 foi criado o plano nacional de vacinação e, logo em 1970, a taxa já tinha descido para 55,5 permilagem. Em 1974, vacinas importantes foram adicionadas ao plano, entre elas a do Sarampo, e em 1987, o plano integrou a VASPR (vacina triplica contra o sarampo, a papeira e a rubéola). Em 2015, a nossa taxa de mortalidade infantil foi das mais baixas do mundo, apenas 2,9 permilagem. São excelentes notícias e devem deixar-nos gratos à ciência, à medicina, e à enorme colaboração das cidadãs e dos cidadãos portugueses que têm sustentado estes avanços, vacinando as suas crianças. Claro, continua a morrer-se muito em Portugal… Como é natural, já que tod@s vamos morrer um dia. O que a eliminação/redução drástica de doenças como o sarampo, a papeira, a poliomielite, a rubéola, ou a meningite, permite, é que vivamos mais tempo e com mais saúde.

Não é verdade que a VASPR produza autismo ou outras maleitas do género. Houve um único estudo – feito apenas com 12 crianças – que concluiu que poderia haver uma associação entre a vacinação e o autismo. Dezenas de estudos posteriores vieram demonstrar que assim não é. O autor do falso estudo, Andrew Wakefield (os restantes 12 subscritores do estudo acabaram por  repudiar os resultados e retirar os seus nomes da investigação), foi mais tarde condenado por ter recebido dinheiro de uma associação de pais de crianças autistas para fundamentar um pedido de indemnização destes pais contra as farmacêuticas que produziam a vacina… O estudo de Wakefield é hoje globalmente reconhecido como uma mera fraude oportunista. Alegações semelhantes foram feitas por um médico americano, James Jeffrey Bradstreet, sem qualquer apoio científico (este médico foi também alvo de investigações, e ter-se-á suicidado). Não vos quero maçar com tecnicalidades. Basta pensarem um bocadinho. Se mais de 95% das nossas crianças estão vacinadas com a VASPR, e se a VASPR causa autismo, não teríamos uma enorme percentagem de crianças autistas? Embora não tenhamos números concretos, um estudo português de 2006 apontava para uma permilagem de 1% a 3% (10 a 30 pessoas com autismo em cada 10.000, ou 1 a 3 pessoas com autismo em cada 1000). Basta usarem a vossa capacidade de pensamento crítico para concluírem que a associação entre a vacinação e o autismo não tem sentido…

E afinal, o que é a vacinação? É uma variante daquele provérbio português que nos diz que “a mordidela do cão cura-se com o pelo do mesmo cão”. O provérbio não é verdadeiro (não experimentem em casa, ok?), mas a vacinação funciona de modo parecido (podem ver aqui um resumo da história da vacinação). Descobriu-se que o contacto supervisionado entre uma pessoa (sendo mais eficaz em crianças) com variantes “controladas” dos microrganismos (bactérias, micróbios, vírus) que provocam doenças graves – e controladas porque se trata de estirpes menos perigosas do microrganismo ou de microrganismos estéreis, que não se podem reproduzir – permite que o nosso sistema imunitário crie logo as defesas necessárias para, caso entremos em contacto a sério com a doença, mais tarde, nos possamos defender sem consequências tão graves ou fatais. A vacina é então, regressando ao provérbio, o “pelo do cão” que, não impedindo a mordidela do cão, permite que o nosso corpo nos proteja, transformando o que seria uma valente e perigosa dentada em meras coceguinhas.

A vacinação é, também, de certo modo, uma espécie de jogo de roleta com rede. Trata-se de expor a criança ao vírus ou micróbio que provoca a doença, mas de um modo controlado (com rede), com a certeza de que não haverá danos maiores. E funciona melhor nas crianças, também porque muitas destas doenças (como o sarampo, a papeira ou a rubéola) são tão mais perigosas quanto mais velha for a pessoa que a contrai. O sarampo é relativamente grave para uma criança, mas torna-se bastante mais fatal para um adulto (não é por acaso que tínhamos a expressão “limpar o sarampo”).  O desprezo pela ciência é, nesta questão e sempre, uma manifestação de estupidez. Os pais que não vacinam as suas crianças não os estão a proteger mais. Estão a jogar à roleta russa sem rede. Estão a jogar com a sorte. É possível que os seus filhos nunca entrem em contacto com estas doenças em crianças, e nem mesmo mais tarde, como adultos. Mas, se tiverem o azar de, já em adultos, entrarem em contacto pela primeira vez com o sarampo ou a papeira, não vão ter defesas preparadas para reagir à doença, pelo que o risco de consequências graves ou de morte é exponencialmente maior.

Por outro lado, a vacinação é, igualmente, um ato de cidadania e solidariedade. Ainda que eu, como mãe, achasse que conseguiria manter a minha filha numa redoma de vidro simbólica, protegendo-a de todos os contactos perigosos, teria vacinado a minha filha. Sei que há crianças que não podem ser vacinadas (podem ler aqui todas as explicações sobre a VASPR, as vacinas que têm gerado mais polémicas). E sei que, ao vacinar a minha filha, estou a proteger indiretamente estas outras crianças que, por falta de opção, não podem ser vacinadas. Chama-se proteção de grupo. Quando as taxas de vacinação são superiores a 90%, numa determinada população, a doença não tem por onde se desenvolver, acabando por ser erradicada. É assim como quando cortamos o oxigénio para apagar um fogo. Sem ar, a chama não tem como se alimentar e morre. Se tod@s estivermos vacinad@s, a doença não tem como se reproduzir, e morre. Morre a doença, vivemos nós. Infelizmente, o fenómeno da proteção de grupo gera também um outro fenómeno quase tão perigoso como a doença: o da falsa sensação de segurança. Há 30 anos, quando eu era criança, era normal que as crianças tivessem todas as doenças tradicionais: sarampo, varicela, papeira, rubéola, escarlatina… Eu tive – ainda que sem sintomas graves, por estar vacinada – contacto com todas estas doenças, e estou, por isso, felizmente imune. A minha filha de 13 anos não teve qualquer uma destas doenças. Nem uma. Nem um sintoma. Nem uma ida ao médico ou ao hospital. De certo modo, ainda bem. Contudo, o desaparecimento das doenças faz com que os pais se esqueçam que ainda existem. E que podem matar. Gera uma falsa sensação de segurança que pode levar, erradamente, muitos pais a verem a vacinação como dispensável. Pais, lá porque o leão está preso na jaula há 30 anos, não quer dizer que se tenha tornado inofensivo! Se abrirmos a jaula ao leão, ele volta a atacar. Como, aliás, demonstra este pequeno surto de sarampo que tivemos e que já provocou uma morte (e indizível sofrimento aos pais da jovem que morreu).

A “opção” de não vacinação numa criança saudável que podia ser vacinada é, assim, o resultado combinado de um bocadinho de estupidez, com um bocadinho de medo, com um bocadinho de egoísmo. Como admite Manuela Ferreira, mãe de uma criança não vacinada por opção, “se a minha filha tivesse nascido numa família com carências ou com más condições de higiene se calhar também a tinha vacinado”. O que esta mãe está a dizer – mal, com base num preconceito de classe e revelando o tal prejuízo inconsciente que associa a pobreza aos males do mundo – é que a “opção” de não vacinar a sua filha assentou, em muito, no contexto em que a filha vive. É porque a filha vive em Portugal, um país que tem uma taxa de vacinação superior a 95% da população, que a Manuela pode tomar esta “opção”. A Manuela sabe que, como em Portugal estamos quase tod@s vacinados e já praticamente erradicámos a maioria das doenças mais graves, que pode não vacinar a sua filha, já que o risco de contágio é muito baixo. Há aqui um fenómeno semelhante a utilizar, sem pagar, a internet do vizinho. A filha da Manuela não está vacinada, mas vai estando protegida porque eu vacinei a minha filha (eu e mais de 90% dos pais e mães portugueses).

A Manuela está também muito contente porque a filha de 9 anos nunca ficou doente (com seriedade) e nunca tomou um antibiótico. Pode parecer que é uma coisa boa… Mas também pode não ser, especialmente se pensarmos numa criança – como a filha da Manuela – que não está vacinada e que, provavelmente, não esteve em contacto com bactérias, vírus e micróbios de modo regular, pelo que não tem vindo a construir um bom sistema imunitário. A Manuela acredita que está a fazer o melhor para a sua filha, mantendo-a na tal simbólica redoma de vidro e contando com a proteção de grupo. Mas as crianças têm que cair para aprenderem a levantar-se sozinhas. Ou seja, é bom que as crianças estejam doentes de vez em quando, porque a doença (as mais comuns, como a constipação, gripes, gastroenterites, ou as tais bronquiolites que todas as crianças normalmente apanham) é uma “queda controlada” da criança que serve para que a criança aprenda a levantar-se sozinha. A Manuela acredita que o sistema imunitário se reforça através da boa alimentação e cuidados de higiene. Ou seja, acredita que a sua filha não precisa de aprender a levantar-se, basta que a mãe esteja sempre vigilante e evite todas as quedas. Espero que tenha razão, sinceramente.

O problema é que as crianças não duram para sempre. Transformam-se em adultos. E os adultos também caem. Ou seja, também ficam doentes. Como é em criança que temos que reforçar o nosso sistema imunitário, uma vez adultos já não há nada a fazer. O meu sistema imunitário – e também nunca estou doente, estive doente recorrentemente quando era criança e agora sou uma adulta saudável – reforçou-se porque eu comia pastilhas elásticas do chão quando era criança, porque fui vacinada, porque estive regularmente em contacto com outras crianças e pessoas doentes, etc. Reforçou-se o meu sistema imunitário e a minha capacidade de ser autónoma e tomar decisões responsáveis sozinha. Brincava na rua, caía e levantava-me sozinha, não havia protetores nas tomadas e aprendi a nadar porque cai na piscina.

A melhor prenda que uma mãe ou um pai podem dar aos seus filhos ou filhas é a autonomia. A possibilidade de um dia mais tarde, quando forem jovens ou adultos, poderem tomar as suas próprias decisões. Para isso, é preciso que estejam viv@s, obviamente. Mas também é preciso que tenham aprendido a cair e a levantarem-se sozinh@s. É no equilíbrio entre a proteção necessária e a liberdade para deixar a criança cair que residem os maiores desafios da parentalidade. Fazer escolhas de parentalidade tendo em vista este equilíbrio é muitas vezes difícil, estamos sujeitos à pressão dos nossos pares, à censura social ou à influência da família. É normal que os pais e mães tenham dúvidas ou precisem de conselhos. Felizmente, há uma amiga que nos dá (quase) sempre conselhos isentos: a ciência. Muito obrigada pela vida da minha filha, é o que tenho a dizer à ciência e a todas as mães e a todos os pais que também vacinaram as suas filhas e filhos.

P.S.: A morte da jovem que contraiu sarampo é, acima de tudo, uma enorme tristeza. A prioridade dos nossos comentários sobre esse caso, para quem o comente, deve assentar no sofrimento (quase inimaginável) dos pais, família e amig@s. No entanto, este caso – tal como tantas tragedias ou acidentes têm servido ao longo da nossa história – transformou-se também num símbolo de um conflito social: vacinar ou não as nossas crianças? É clara a minha posição, o que não implica, obviamente, que conclua que quem opte por não vacinar não tenha em mente o melhor interesse das suas crianças. Claro que terá. De uma forma um pouco egoísta e com muita desinformação na cabeça, estes pais querem, como a generalidade dos pais, o melhor para os filhos. Cabe à nossa sociedade insistir na educação, no combate à desinformação e à pseudociência, assim evitando que mais crianças fiquem expostas a riscos de vida tão facilmente evitáveis.