MAR SEM REDE

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Uma superfície de silêncio cobria o céu entrecruzado pelas diferentes trajetórias das gaivotas de bicos fortes e compridos.

Amanhecia devagar. O dia nascia pelas ruelas: pregões da primavera e do peixe fresco.

O mar existia, a brisa da manhã envolvia-me e o sol espreitava enquanto me dirigia para a doca.

Lá estavam as primeiras sardinhas e carapaus. O robalo, a faneca, o polvo, o salmão e a cavala.

Ó meu amor, olhe que lindas. São fresquinhas!

Eu passava, descomprometida. Via tudo: O gelo feito em água que desaguava nos meus pés, os olhos salientes e as guelras vermelhas e brilhantes em caixas de esferovite: a carne firme.

Via moças novas carregadas. Não pelo peso dos cabazes acabados de chegar, não pelo cheiro a amoníaco impregnado na pele, mas pela vida: cheia de espinhas.

Por vezes, reparava nas senhoras mais velhas, sentadas por detrás de tudo. Vestidas de preto, de gostos humildes e singelos.

Ainda tomavam conta do negócio, as rainhas do regateio, e poucos eram os que não se perdiam na sua lábia eloquente: o rosto grave, a voz segura e convicta.

Após percorrer todas as bancadas fui assediada pelas palavras da dona Isaura. Jurou-me que aquela era pescada portuguesa e enumerou as suas diversas qualidades, recorrendo a um sem fim de sinónimos. Não me largou, pronunciou algumas sílabas carinhosas e foi buscar dois sacos pretos que as suas mãos, cobertas por escamas vítreas, abriram de imediato.

Quis vender-me tudo: o peixe e as angústias de uma vida inteira. Quis falar. Quis que eu soubesse como era ingrata aquela vida, como era injusto perder um filho no mar e extenuante ser mãe de outros sete criados sobre os alicerces que, da sua própria força, construiu.

É triste, menina! Isto está cada vez pior, sabe? Não há apoios, ninguém sabe como é esta vida.

É triste, menina. É triste, menina. É triste, menina.

Aquelas palavras ricochetearam os meus pensamentos como setas lançadas diretamente contra o meu peito.

E os olhos dela eram só maresia: água salgada: a dor e a cura.

Os seus passos lentos, pesados e dúbios, denunciavam a tristeza. Habitava em si um desejo sem força. Um querer que não era poder. Todos os dias eram iguais, passavam devagar: rochas firmes que, aos poucos, se iam esfarelando até, um dia, deixarem de restar.

Permanecia a medalha que delatava a crença em S. Pedro: uma fé de poucas esperanças.

Ora, são vinte e cinco euros.                                                         

Os sacos pesavam e os meus ombros, descaídos, voltaram-se para a saída. Balbuciei umas palavras impotentes.

Lá fora, o sol queimava como as brasas que, pouco tempo depois, fariam palpitar aquelas sardinhas.

Pelo caminho, pensei como, para a maior parte das pessoas, é banal ter peixe fresco para amanhar todos os dias na comodidade do seu lar. Depois, imaginei o sacrifício dos pescadores. Pensei nos seus rendimentos, nos apoios que não lhes são concedidos e nos sonhos que estão para lá do horizonte.

Nas famílias: a angústia dos que ficam e dos que vão. Promessas.

E vi, de novo, o rosto terno daquela mulher: embebido em lembranças, em histórias que o tempo não dilui: saudade.

«Quem anda no mar aprende a rezar, minha filha!»

E, para mim, já era hora do almoço.