MELODIA FRAGMENTADA

271

Num ritual diário, sem a roupa que me camufla socialmente, analiso-me através do meu reflexo e sou atingida por uma lista de críticas alheias a mim. Sou fruto de um escalonamento social que me socalca insistentemente o corpo com imposições físicas. Não sou poesia que rima emparelhada ou alternadamente antes uma melodia dessincronizada, cheia de acordes que, segundo os meus ouvidos, fazem sentido. As notas tocadas pelos meus cabelos desalinhados e frisados são virtuosas. O ritmo que a celulite das minhas pernas pauta, rege-se pelo metrómano das minhas escolhas. As minhas mamas, num desequilíbrio harmonioso de tamanho e adornadas por padrões compostos por estrias, atingem agudos de sopranos. As rugas de expressão, bem vincadas no meu rosto, são as responsáveis pela misturação temporal dos meus humores. As formas pouco curvilíneas do meu corpo, que não enchem as medidas de terceiros, ajudam a compor a letra da minha apresentação.

Ler artigo completo ...