NÃO ME TOCA (NÃO QUERO SABER)

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No fundo, é este o diálogo que temos com as nossas crianças: quando visitamos a tia Eunice (que cheira mal da boca), quando o menino tem a “falta de educação” de não querer dar um beijo aos avós, quando se recusa a abraçar o nosso melhor amigo (que por acaso é um desconhecido para ele), quando não quer despedir-se da professora….

Os miúdos dizem-nos que não estão interessados em beijar ou abraçar determinada pessoa e nós, cedendo à pressão social e à lei do politicamente correcto, lá nos chateamos e obrigamos os garotos a comportarem-se de forma que não nos embarace.

Embaraça-nos porquê?

Nunca gostei de beijos, seja de dar ou receber. Com a idade aprendi a tolerá-los, mas a verdade é que continuo a passar bem sem a invasão do meu espaço físico que um abraço ou um beijo implicam. Existem excepções, claro: os meus alunos (quem não gosta de um beijo babado e repenicado de uma criança?), o meu marido, alguns familiares e amigos próximos… Mas a obrigação de beijar desconhecidos sempre foi algo que me causou desconforto. Aprendi a ignorá-lo, até porque já me bastou ser a “esquisitóide que não cumprimenta ninguém com dois beijinhos” na adolescência (e não creio que me safasse com isso na vida adulta).

Talvez por esta razão nunca obriguei uma criança a beijar-me ou a abraçar-me. Muitas vezes despeço-me dos meus alunos com um aceno. Há quem ache a atitude fria, distante. Eu considero importante respeitar o espaço deles, independentemente de serem dois palmos de gente.

O consentimento ensina-se na infância.

Ensina-se a diferença entre os sentimentos bons e maus. Ensina-se a distinguir, a conhecer, a decidir, a escolher. Ensina-se a importância de um amigo, mas também deve ensinar-se que ninguém deve tocar-nos sem a nossa autorização, por muito próximo de nós que seja.

Acima de tudo, ensinam-se as crianças a crescer saudáveis, fortes e resolvidas.

Porque se forçamos uma e outra vez as nossas crianças a ignorar o desconforto, a vontade, o direito que têm sobre o próprio corpo, formamos adolescentes e adultos confusos. O menino que é obrigado a beijar a tia Eunice pode ser o mesmo menino que aceita que alguém lhe toque de forma inapropriada porque não conhece o poder que tem sobre si mesmo. Até pode nem saber reconhecer o desconforto que o toque lhe causa, de tanto se ter sido obrigado a ignorá-lo. Esse mesmo menino pode ser o adolescente que aceita a pressão para fazer sexo antes de se sentir preparado, pode ser o adulto incapaz de sair de uma relação abusiva. Pode nunca aprender a dizer “não”.

A tia Eunice até pode ficar chateada e achar uma maçada um menino tão pequeno e tão mal educado. A tia Eunice pode dizer o que quiser, mas nada do que diga deve fazer com que o menino seja obrigado a abdicar da soberania que tem sobre o próprio corpo.

“Não me toques” é algo que deve ser levado a sério, dos 0 aos 100 anos. Ignorar um “não”, e pior, forçar um contacto físico indesejado, abre um caminho perigoso que nenhum de nós quer ver uma criança percorrer.

A tia Eunice que se lixe!

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