NÃO QUERO NADA. ESTOU SÓ A VER por Marine Antunes

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“Estás feliz, Marine?”, perguntam-me, e a minha resposta é sempre a mesma: “Não, não estou feliz. Eu sou feliz. Ou pelo menos, procuro ser, todos os dias”. É diferente.

A felicidade é um estado. Aliás, é como o estado civil – também pode mudar. Também pode não ser para sempre. Também varia. Também pode ser tão excitante e efémero como os amores de Verão e, sinceramente ter felicidade não é, nunca foi e nunca será uma preocupação minha. Também não quero a infelicidade para nada, por isso, quando vem, não me agarro a ela. Não a compro, não a como, não a possuo e mesmo que a quisesse para mim, não teria onde a guardar, porque no meu quarto desarrumado já não cabe mais nada.

Quando a infelicidade aparece, deixo que venha e deixo que desapareça, com a mesma tranquilidade. Não quero ter nada. Já quis, noutra vida, ter um carro e esse sonho não me serviu para muito porque Deus não me capacitou com o dom da condução. Mas não, não quero alimentar aquele horroroso cliché que diz que “as mulheres não sabem conduzir. É tão estúpido como outra mentira qualquer e, acreditem, eu não saberia conduzir mesmo que tivesse nascido homem. Com isto, quero apenas sublinhar a ideia de que é um desperdício de tempo querermos ter tudo porque, na verdade, nada é nosso. Este mundo não é nosso. As pessoas não são nossas. Os filhos não são nossos. As coisas não são nossas. É tudo emprestado – e mais vale não estragarmos nada, porque teremos de devolver tudo (e ainda com a etiqueta), quando bazarmos daqui. Que é como quem diz, quando morrermos.

É melhor habituarmo-nos a dizer ao Mundo, durante a nossa vida: “Não quero nada. Estou só a ver”. Sim, a mesma frase que tantas vezes proferimos quando entramos numa loja e não podemos comprar (queremos sempre comprar, só não podemos).

“Estou só a ver” – apreciar sem possuir, apreciar sem consumir, apreciar sem usar as pessoas, as coisas, os amores. Eu sei que é o mais difícil de fazer, mas a longo prazo, é também a única forma de vivermos com alguma paz. E como é que fazemos isso? Como é que criamos o desapego quando amamos? Como é que libertamos, se queremos agarrar? Como é que nos vemos “sem aquela pessoa ou aquele emprego” se achamos que isso é tudo o que temos?

Na minha modesta opinião, temos de perceber, inicialmente, que desapego não é falta de amor. Desapego não é indiferença. Desapego é, sobretudo, confiança. Quando conseguirmos confiar que cada caminhada é válida, única e pessoal, que mais não podemos fazer do que apoiar a que a pessoa corte a meta e aplaudir quando recebe a medalha (mas que nunca poderemos ir receber a medalha em nome do outro), tocaremos na paz. Quando confiarmos na vida e aceitarmos que existirão sempre desígnios que não percebemos e que não controlamos coisa alguma, tocaremos na paz. Quando percebermos que as relações humanas são complementos, apenas complementos e não são competições de egos, tocaremos na paz. Quando confiarmos que a vida é transitória e a morte obrigatória, confiaremos na paz. Quando percebermos que só quando nos entregamos, em pleno, com tudo, sem defesas, porque nada há a defender ou a guardar, já que nada é nosso, tocaremos na paz.

Mas mesmo quando tocamos na paz, não a devemos agarrar – porque gananciosos como somos, teremos tendência a afunilá-la, a guardá-la no cofre com código e tudo para não se estragar. Quando tocamos na paz é melhor usufruir dela, com a consciência de que é delicada e frágil e de que precisa de cuidados contínuos.

Quando tocamos na paz, é melhor darmos-lhe um beijinho de boa noite com todo o carinho e dizer-lhe, ao ouvido, “até amanhã se Deus quiser” – porque sabemos que amanhã pode não estar ali.