NUNCA TE VOU ESQUECER, MIÚDO

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Diagnosticaram-te morte cerebral.

Dizem que este é o fim da linha, quero acreditar que não, porque vamos todos sentir uma falta tua do caraças e eu acredito em milagres de última hora.

Sabes, pessoas como tu não deviam morrer, deviam eternizar-se.

Soubeste criar e acompanhar a tua filha, conquistar a mulher que sempre amaste: ficar com ela para sempre era o mínimo que podiam conceder-te lá em Cima. Sei que ela sabe a sorte imensa que tem por ser amada assim: o mundo tem poucos homens com um coração como o teu.

Para mim ainda estás vivo, por isso não há mal nenhum em falar contigo no presente do indicativo. De facto, aquele que eu considero ser o teu pedaço de carne mais bonito ainda bate no teu corpo e a esperança em mim sempre foi a última coisa a morrer.

Devia ser o coração o único órgão que dita a nossa vida e a conjuntura da nossa morte porque  é ele que nos faz sentir vivos e felizes – só por isso devia ser o único a poder ditar o fim.

(eu ainda tenho a certeza que isto não passa de um erro tremendo, que se enganaram no céu e daqui a pouco tu fazes o teu número da piadola fácil: não morreste, só estás a gozar com a nossa cara em lágrimas).

Conheces-me desde os 5. Tenho quase 36 anos. É um bocadinho de tempo.
Vivíamos a três prédios um do outro e de alguma forma foste a única referência masculina positiva que se abateu sobre a minha existência. Vivíamos, naquele tempo, no mesmo bairro e quem nunca viveu num bairro não sabe o bom que é brincar na rua e ter amigos por perto.

Ensinaste-me tanto. Eras um chefe de escuteiros para a vida.

Fazias rir, sempre, porque talvez saibas que essa é a única forma séria de levarmos isto tudo até ao fim: em gargalhadas altas, sem medo do que os outros vão pensar de nós.

Se te ouvisse gritar do outro lado da rua, sabia que era para mim.

De tantas parvoíces tuas recupero a minha favorita. No dia do meu casamento passaste com o teu carro e posicionaste o teu vidro ao meu lado para dizer:

“Estás tão feia” e deitaste a língua de fora como se tivesses dez anos (tinhas quarenta e tantos e o cabelo cinzento).

Rimos os dois para não variar.

Sabes, olhar para a tua janela nunca mais vai ser a mesma merda.

Dizem que o teu cérebro morreu.

Mas o teu cérebro não é o teu coração. Já te disse no princípio do texto que acredito em milagres de última hora e estou à espera de um para ti, como o golo do Kelvin que ninguém sabe como foi. Que fiques por cá mais um tempo. É isso.

Só mais algum tempo, ou só o tempo todo que te derem, para te aproveitar mais um bocadinho.