OS ANORMAIS

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Nunca percebi muito bem o conceito de “anormal”.

Fui ao dicionário e vi que um anormal é uma “pessoa que não é normal”, mas fiquei na mesma. É que também acabo por ter dúvidas naquilo que define uma “pessoa normal”. Voltei ao dicionário, que define normal como “regular, conforme a norma”.

Desisti.

Não faço ideia do que é uma pessoa “regular, conforme a norma”. Se calhar não conheço gente suficiente, mas cada pessoa que conheço tem as suas particularidades, nenhuma é feita do mesmo molde que outra, nem sequer as gémeas. Suponho que só conheço anormais, a falha deve ser minha.

A obsessão com a normalidade assusta-me um bocado. É que a única forma de normalidade que conheço é completamente utópica, ninguém é assim. Pior! A minha normalidade é diferente da normalidade do próximo. Como é que é suposto seguirmos regras que nem sequer existem de forma concreta?

Nos últimos dias tenho ouvido muito burburinho em volta da suposta anormalidade que é ser homossexual.

Primeiro que tudo, haveria de se explicar esta necessidade de escrutínio constante da vida sexual dos outros. Honestamente, acho que o que acontece na intimidade de cada um diz apenas respeito aos envolvidos, desde que sejam adultos conscientes e exista consentimento. Se duas (ou três, ou vinte) pessoas querem fazer sexo, isso é com elas, não me cabe a mim opinar. Se quiserem fazer estudos sérios e científicos, óptimo, mas mandar bitaites em entrevistas e redes sociais faz poucochinho pelo desenvolvimento da humanidade.

Atiram-se para o ar considerações de mesa de café sobre a biologia e a continuação da espécie. Convido-vos a pesquisar no Google uma página que conte os nascimentos no mundo: verão que são mais que suficientes. Aliás, o mundo até está a ficar com gente a mais, em breve não existirão recursos para todos. Já que estamos na mesa de café e podemos falar da boca para fora, podemos até argumentar que a população heterossexual fértil é, neste momento, uma maior ameaça para a continuação da espécie que os homossexuais. Podia dizer-se que a homossexualidade é uma necessidade, que cresce proporcionalmente ao desenvolvimento da medicina e ao aumento da esperança média de vida… Pode dizer-se todo o tipo de alarvidades quando estamos na mesa de um café, mas isso não quer dizer que sejam factos fundamentados ou correctos. Ter uma opinião (e partilhá-la) é uma responsabilidade, pode ter consequências directas na vida das pessoas, especialmente se somos ouvidos por muita gente. É fácil esquecer isso por trás de um ecrã de computador, é fácil deixar de ver o ser humano que se esconde do outro lado, os sentimentos que podemos ferir, as vidas que podemos destruir apenas com o poder da palavra.

Por isso, deixo a sugestão:

Da próxima vez que vos apetecer chamar nomes a alguém vejam um vídeo de gatinhos bebés e partilhem-no. O mundo agradece (e o vosso coração também).

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