OS PSICÓLOGOS TAMBÉM CHOCAM DE FRENTE por Sofia Arriaga

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Há uns tempos li um título bastante sugestivo – realmente não há nada melhor do que um bom título – “As fadas também tomam Prozac”. Na altura não li o artigo, confesso, mas o título não me saía da cabeça e, embora sem me aperceber do erro, fiz uma interpretação minha do título original. Sempre que pensava nele era “As princesas também tomam Prozac”. A ideia de as princesas dos contos de fadas e mesmo de as princesas reais, cujas vidas imaginamos perfeitas e até invejamos, precisarem de medicação, por sofrerem, por não aguentarem as exigências da “profissão”, por não se sentirem capazes de honrar as expectativas que recaiam sobre elas, fazia-me todo o sentido. E houve um dia em que se fez o clique. Era sobre isso que queria escrever: os psicólogos também tomam Prozac – quem diz Prozac, diz Diazepam e Sertralina, mas, convenhamos, não tinha a mesma pinta. Contudo, como não queria levar emprestado um título que não era meu, surgiu-me um substituto, que se enquadrava perfeitamente na ideia que queria transmitir. Podia não ser tão bonito, mas era verdadeiro: Os psicólogos também descarrilam. Uns dias depois, ao falar com uma psicóloga amiga sobre um determinado assunto, dizia-me ela, “não é bem um descarrilamento, é mais um acidente. Um acidente inesperado, como uma crise imprevisível, onde se chocou de frente numa colisão brutal, se partiram as duas pernas, onde há sangue por todo o lado, estamos em choque e a tentar processar o que nos aconteceu, olhando pelo lado de fora para aquele cataclismo, como se não fosse da nossa vida que se tratasse”. E o título simplesmente surgiu. Os psicólogos também chocam de frente. A 180 à hora, contra muros de pedra, paredes de cimento, contra camiões cisterna. Também entram em coma, colapsam, também querem largar tudo da mão, também sentem que não têm forças para continuar, para resistir, para aguentar a pressão.

Escolhi os psicólogos, porque sou psicóloga. Também poderia ter escolhido os professores, porque também sou professora. Ou as mães, porque sou mãe, 4 vezes mãe. Podia até ter escolhido as princesas, embora já só seja uma princesa aos olhos dos meus filhos, ou porque ainda me recordo dos dias em que acreditava ser uma princesa.

O que quero dizer é que há profissões, há papéis sociais que desempenhamos que nos obrigam a ser um exemplo diário, de força, determinação e virtude. Uma mãe não pode chegar um dia e dizer simplesmente “não aguento mais, chega, não quero mais ser mãe!”; uma educadora de infância não pode aparecer um dia sem aquele sorriso rasgado na cara ou a sua paciência infinita; uma política não pode tirar fotografias onde apareçam mais uns centímetros de pele do que os aparentemente estipulados como permitidos, nem pode mostrar a barriga de grávida… Um psicólogo não pode deprimir, não pode não se conseguir ajudar, desistir. É que somos exemplos, vistos como seres perfeitos, sem defeitos, sem pecados. E se até o psicólogo “descarrila”, o que acontecerá com os comuns mortais? Como é que ele pode ajudar outros, se não consegue ajudar-se a si mesmo?

Temos de parecer, mais do que ser. E ninguém quer realmente saber da vida difícil das mães, das princesas, dos psicólogos,dos professores, dos políticos… Tal como os anjos não têm sexo, é como se estas pessoas não tivessem vida. Não lhes é permitida a condição humana.

Nós somos um pouco voyeuristas e encontramos algum tipo de prazer sádico e retorcido na tristeza dos outros ou, para não parecer tão mal, posso simplesmente dizer que a tristeza dos outros, principalmente dos sobrehumanos, torna “os outros” mais humanos… essas crises dos “intocáveis” justificam as fragilidades de quem não tem esse estatuto.

Um médico fuma, embora diga aos seus pacientes para não fumar. Um médico também adoece de uma doença física e morre, não há como escapar, a menos que seja atropelado, assassinado, que caia de um 10º andar… Mas quem não ouviu já dizer “ele está doente? Mas é médico!”.

E os psicólogos também são pessoas, com vida pessoal, com acontecimentos traumáticos, com crises de vida, umas esperadas e outras totalmente inesperadas. Também sofrem, também desesperam e também não encontram em si todas as respostas e todas as estratégias para lidar com os males do mundo e com os seus próprios males. Sofrem pela vida dos outros. Sofrem pela sua própria vida. E por vezes precisam que os ajudem. Os psicólogos também precisam de tempo para se restaurar, para colar os pedacinhos partidos, fazer terapia à alma e reaprender a amar, principalmente a gostarem mais de si próprios. E acreditem, essas experiências, tão humanas, só os tornarão mais entendedores do sofrimento alheio, não mais fracos ou mais incapazes.

Um dia alguém chocou de frente, entrou em coma, deixou de conseguir funcionar, deixou de conseguir trabalhar, de cuidar dos filhos, perdeu o interesse por tudo. Quase desistiu. Aos poucos foi aprendendo novas estratégias, foi descobrindo o que estava a ser ou não tóxico na sua vida, foi encontrando novas formas de lidar com o acidente e criando uma nova identidade, a partir das cicatrizes deixadas, mas não deixando que essas cicatrizes fossem o que o/a definissem. O Prozac pode ter ajudado. Que eu saiba, não é crime tomar medicação, nem vergonha, nem uma maldição. Pode ter sido uma mãe, pode ter sido um professor, pode ter sido um psicólogo… Pode ser qualquer um. Pode ser qualquer pessoa. Porque um dia, todos podemos chocar de frente.