PARA A MINHA IRMÃ

18028

*dedicado ao H.

Um dia tinha de escrever o que se segue.

Para te embaraçar (certamente) mas porque tornar a coisa pública é como andar com isto escrito na testa: sim, és a melhor irmã que eu poderia ter.

Ensinaste-me a ler e a escrever. Também me levavas à ama meio de empurrão, obrigavas-me a dizer a tabuada no comboio e um dia mordi-te a mama quando não fizeste o que eu queria: tinhas 16 anos e eu 3 ou 4 (…muito espevitadinha para a minha curta idade, já sabemos).
Foi a ti a quem triunfalmente chamei “puta” quando no infantário me ensinaram a dizer palavras novas: eu pratiquei o meu novo vocabulário em ti. Deves-me ter dado um bofetãozinho, não sei. Mas mudaste-me as fraldas e cuidaste de mim naquele dia de Natal em que a avó morreu em nossa casa.

Aos 5 anos a avó morreu e tu fizeste o que tinha de ser feito.
Fizeste-me compreender que a morte é quietude quando me mandaste (por ordem da mãe) para casa dos padrinhos. Eu só soube que a morte era a avó deitada numa maca levada por bombeiros, enrolada ao meu cobertor amarelo e dentro de uma ambulância que não tinha as luzes acesas nem apitava alto quando começou a andar (sim, eu espreitei pela varanda dos padrinhos).
Obrigada por me teres ensinado que a morte podia ser assim tão pacifica e não me teres deixado ver o resto.
Ainda acho que era só isso que uma menina de 5 anos precisava saber.

Foste tu que me ensinaste que não é bom ter um namorado que não arranja espaço na sua casa para nós, que não muda fotografias nem tira quadros pintados por um ex-amor por vontade própria, que assiste a uma humilhação pública da tua existência na sua vida passivamente, sem te proteger, sem dar nenhum murro na mesa.
Foste tu que me ensinaste que também não é bom ter um namorado que controla a manteiga que pões nas torradas ou a forma disparatada como gostas de bolachas e de chocolates aos domingos ou durante a semana toda (obrigada por isso também).

Foi contigo que dei as gargalhadas mais altas, abraçámos juntas o Papa Francisco em audiência geral no Vaticano e fomos muito felizes nesse dia.

Pagaste a minha primeira viagem a Londres com o colégio quando a nossa mãe não podia pagar, e foi ao teu lado que passei o pior dia da minha vida. A minha memória apagou parte da manhã desse dia, e sempre que fecho os olhos para pensar nele por alguma razão sadomasoquista, é a tua cara que me surge, serena e apaziguadora: foi o teu corpo que amparou o meu sem chorar – eu não podia chorar nesse dia e tu ergueste-me o queixo, ou apoiaste-o erguido, não sei bem.

Sempre achei que ter um irmão ou uma irmã era como ter mais uma perna ou mais um braço no corpo: talvez mais uma cabeça ou mais um coração – não sei que parte do nosso corpo um irmão realmente duplica em nós.

No dia do meu casamento mandaste-me olhar para o tecto para não arruinar a maquilhagem perfeita quando a presença de tanta gente bonita em nossa casa me emocionou. Na véspera, na cozinha da casa da mãe, perguntaste-me se eu queria mesmo casar… porque, se tivesse mudado de ideias, tudo se resolveria a tempo.
Eu ri-me e disse-te que aquele tipo era o homem da minha vida.
Foste tu quem me esperou no carro no dia em que me divorciei.

Tenho para mim que não sobreviveria sem ti.

Faz daqui a poucos dias um mês que a irmã do H. morreu. Ele sobreviveu a ela sem chorar. Nunca saberei como conseguiu.

Se um dia eu te perder acho que vou chorar. Muito. Vai ser como se me arrancassem a seco a perna ou o braço (ou o coração ou a cabeça a mais que tenho no meu corpo por te ter como irmã).
Não faço ideia como serão os dias que se seguirão a esse. Nem sei se saberia andar, para ser completamente honesta.

Mas sabe o que é que eu penso?
Se não fosses mais uma perna ou mais um braço meu (ou mais um coração ou mais uma cabeça no meu corpo), eu não seria metade do que sou: ainda que um dia te perca pela consequência óbvia da lei da vida.
Deve ser por isto tudo que temos irmãs mais velhas.