PARA MARIA por Raquel Freire

619

Olhem bem: este é o olhar da Maria Zamora. Pessoa maravilhosa, actriz talentosa, amiga extraordinária, transmontana de fibra, clown arco-íris, música de 7 instrumentos, melhor cantora do Maná-maná dos Marretas do mundo inteiro, dotada florista, pessoa duma imaginação e duma generosidade infinitas, corajosa lutadora contra todas as adversidades que a vida lhe pôs desde criança, vida dura, e foram muitas. merece todo o nossos respeito, admiração e questionamento sobre como é que nós, a nossa sociedade trata as mulheres quando elas são vítimas de violência.
A tua morte não me parece real, minha mais que querida Maria. Quando chegar a Lisboa vou ligar-te, vens lá a casa beber um chá e como de costume vamos conversar e rir das amarguras como só tu és capaz de o fazer. as verdadeiras palhaças riem mesmo quando choram, não é, Maria?
Prometo-te que quando voltar a Portugal vou saber processo contra a besta que te andou a fazer mal, ele será responsabilizado. não serás esquecida, Maria. para que nunca mais nenhuma mulher sofra o que tu sofreste. prometo que vou continuar fazer filmes, a escrever, a dar a cara por todas as mulheres que não conseguem ter voz, como tu me pediste um dia.
Vejo que nos escrevemos longamente mesmo antes de eu partir, tento ver sinais, não encontro. a tua ternura, a tua gentileza, brilham em cada palavra. revejo que me escreveste há 2 dias, a música, a grande paixão, nina simone.
prometo-te que não estarás sozinha nunca mais, Maria.
Foste, és e serás amada por quem tem a alegria de te conhecer.
Aqui não há passado. o tempo é uma coisa relativa, tu sabes bem, Maria. Aqui há só amor e um bocadinho de saudade que teima em me embaciar os olhos.
Tua,
Raquel Freire