PELA MINHA RITA, POR MIM E POR TODAS NÓS!

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A minha Rita sempre foi a minha Rita, mesmo quando discutíamos qual de nós era a melhor jogadora e a que marcava mais golos.  Éramos apaixonadas por futebol, ainda somos, para mal dos nossos pais, que preferiam que gostássemos de costura e malha. Era na costura que passávamos as tardes em que não tínhamos escola, mas aquilo não era para nós. Recordo que aprendíamos com extrema facilidade e queríamos que essas tardes passassem o mais rapidamente possível. As catequistas, quase todas freiras, tinham uma paciência enorme para nós e para aquilo que elas chamavam de irreverência. Há trinta anos tudo era irreverência e o simples fato de termos feito uma camisola com as cores do nosso clube, era coisa que meninas não deveriam fazer. A Rita respondeu a uma das freiras “mas o vermelho e o branco não são só do Benfica, cada um interpreta a nossa camisola como quiser” , na falta de argumentos, assim ficou. Quando nos perguntavam “És do Benfica?” nós respondíamos “Porquê, o vermelho e o branco são só do Benfica?”. O gozo que nos dava chocar, principalmente aqueles e aquelas que achavam que o que fazíamos não era apropriado para meninas. Fugíamos para jogar futebol com os rapazes que nos viam como “um deles”.  Um dia, decidimos juntar-nos ao clube de futebol que dava os primeiros passos com uma equipa de futebol feminino. Dissemos aos nossos pais que íamos para o atletismo e andámos no futebol até o meu pai, massagista do clube, ser chamado para resolver uma entorse. Deitada na maca com dores, nem percebi que era o meu pai. Seria impossível estar ali, pois era massagista de futebol masculino, mas ali estava. O meu pai tratou de mim, com a Rita a implorar-lhe para não me castigar pois a culpa tinha sido dela. O meu pai nada dizia, e eu, lavada em lágrimas, nem sei se de dores se de medo, entrei em casa sem lhe ouvir uma palavra. No dia seguinte, ao chegarmos ao treino, a nossa entrada foi barrada com a desculpa de que éramos muito miúdas para ali estar. A Rita puxou-me pela mão e foi direta a minha casa, ralhou com o meu pai com tanta determinação que ele nem conseguia responder. O meu pai preparava-se para dizer mais uma vez “não” quando a Rita rematou ao dizer “a culpa de nós gostarmos de futebol é sua, foi você que nos transmitiu o gosto, é por sua causa que nós somos do Benfica… o meu pai até é do Porto!” e saiu com a mesma pressa e determinação com que entrou. A partir daí o meu pai deixou-me jogar, os pais da Rita deixaram-na jogar, sempre com a condição do meu pai ser o nosso massagista. Na altura não questionámos, só queríamos jogar futebol. Uns meses depois, o meu pai partiu com a equipa para França e nós fomos assistidas pelo massagista do clube feminino. A Rita começou a ficar diferente, fechada em si, e raramente ia aos treinos. Eu não percebi porquê. Acabei naturalmente por deixar também o futebol, uma vez que a minha Rita não estava.

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