PORTUGAL PRECISA DE CUIDADORES por Sara Rodi

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– Senta-te aqui, mamã. Vou cuidar de ti.

Enquanto os meus três rapazolas faziam avarias no jardim, a minha filha foi buscar a bolsa das escovas e a caixa da maquilhagem. Penteou-me (ou despenteou-me?) o cabelo com jeitinho, pôs-me um ganchinho dos seus, pintou-me (ou esborratou-me?) os lábios e no final deu-me um beijinho na testa.

– Vou cuidar sempre de ti, mamã. Mesmo quando tu fores muito velhinha…

A frase tinha a inocência dos seus 4 anos (a doce e maravilhosa inocência da vida). Mas fez-me recordar uma outra frase que a minha avó me disse um dia, já não com a inocência dos 4, mas com a sabedoria dos 90.

– No meu tempo, ter uma filha era uma grande ajuda. Era ter quem olhasse por nós…

O tempo da minha avó era o tempo em que cabia à Mulher (tantas vezes exclusivamente à Mulher) o papel de Cuidadora. Cuidadora dos filhos. E depois Cuidadora dos Pais. Cuidadora de todos aqueles que, na Família, dela precisassem.

Esta ideia de “Mulher-Cuidadora” (a par da de “Homem-Provedor”) sempre causou alguma estranheza à minha geração. Uma geração de Mulheres que cresceu em liberdade e igualdade (ou, pelo menos, com esses princípios no horizonte), que estudou, que lutou pelos seus sonhos, que se tornou independente, que trabalhou… Que, mesmo tendo casado e tendo tido filhos, continuou, na medida das possibilidades (tempo e oportunidades de emprego, num tempo em que ele infelizmente escasseia) a trabalhar, a desenvolver projetos, a ter ideias, a concretizá-las.

A Mulher da minha geração tornou-se também Provedora. E o Homem foi chamado a ser também Cuidador. A cuidar da casa, dos filhos e dos mais velhos. A partilhar tarefas com a Mulher, sem sobrecargas para nenhuma das partes. E tudo isso me parece muito bom e muito justo. Se, de facto, não tivéssemos chegado a um ponto em que a vida de Provedor, quer para o Homem quer para a Mulher, se sobreponha a tudo o resto. Passou a tomar tanto tempo das nossas vidas e a consumir-nos tanto, que o tempo que nos restaria para sermos Cuidadores praticamente desapareceu. Os casais não têm tempo para cuidar dos filhos (e, por alguma razão, em tantos casos, não os têm). Os casais não têm tempo para cuidar dos pais. Na verdade, os casais mal têm tempo para cuidar de si próprios.

 

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